Novos Domínios da História - Cap. 7 História e Cultura Material (Marcelo Rede)

 

O autor trata em seu texto das articulações e rupturas entre a história e os estudos de cultura material 

Se de um lado, raramente, a história confere a importância devida à dimensão material nas relações sociais e tem dificuldade de incorporar suportes materiais ao seu processo de geração de conhecimento. 

Por outro lado, as “análises centradas na cultura material debruçaram-se excessivamente sobre os atributos físicos dos objetos e técnicas.  

Marginalizando dimensões fundamentais caras à abordagem historiográfica, como o contexto social e a dinâmica temporal.  

Por exemplo, pensa-se mais em quais objetos foram desenvolvidos em qual época do quê do que nos usos “não programados”, ou nas diferenças entre os modelos usados por diferentes extratos sociais, que seriam capazes de refletir aspectos latentes nas dinâmicas sociais de uma cultura.   

Ou então poderíamos nos perguntar: como as relações são mantidas em torno da feitura de objetos seriados, ou da manutenção de estruturas que favorecem a conservação simbólica do identitário de uma comunidade? 

Assim, os resultados se preocupavam com a precisão quanto a formas e estilos, matérias e técnicas, tipologias e seriações, mas frequentemente decepcionantes para se entender historicamente as sociedades. 

Os problemas situam-se, assim, tanto no nível ontológico da consideração sobre a natureza das sociedades, como no nível epistemológico das condições de construção de um saber histórico sobre elas. 

Ambas as deficiências estão intimamente ligadas, e enfrentá-las implica um esforço duplo: 

  • Reconsiderar as noções acerca da materialidade do social. 

  • Propor abordagens que permitam a definitiva integração da cultura material na operação heurística da historiografia. 

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As rupturas dessa dinâmica de não-correlação das relações sociais e cultura material foram provenientes na maior parte das vezes de outras disciplinas das ciências humanas, que não a história propriamente dita.  

Este artigo se propõe a estudar estas rupturas e buscar possibilidades de incorporá-las ao estudo da história e à historiografia.  

 

SLIDE – A CULTURA MATERIAL ENQUANTO INDICATIVA DE PROGRESSÃO/EVOLUÇÃO 

Uma noção mais formalizada de cultura material veio a emergir no século XIX, quando as realidades físicas passaram a ser definidas a partir de sua inserção na atividade humana.   

A natureza cultural do ser humano impunha-se como critério fundamental para distinguir “no infinito campo das coisas materiais, os elementos a serem considerados propriamente parte da experiência social”. 

Deste ponto de vista, a cultura material deveria ser responsável por fornecer as informações que possibilitassem compreender o estágio evolutivo de determinada sociedade.   

E foi esse o espírito que marcou as primeiras definições de artefato na arqueologia ou na antropologia.  

“A ênfase na aplicação da técnica sobre a matéria forneceu as bases para a abordagem evolutiva que fez da narrativa da trajetória das sociedades uma sucessão ascendente de estágios tecnológicos.”  

Ex: Idade da Pedra, Bronze e depois Prata.  

Ou seja, focava-se muito na relação do processamento de materiais com avanços tecnológicos capazes de conferir novas formas a uma sociedade.  

A ênfase dada aos ingredientes materiais da trajetória social é definida pela própria posição história do século XIX.  

Por um lado, a Revolução Industrial representou enfim a materialização de um ideal de progresso eurocêntrico provindo do iluminismo e que era socialmente valorizado, consolidando um mercado de inovações contínuas e em expansão para outros países.   

É difícil pensar as primeiras reflexões sobre esse novo mundo, inclusive as de Marx, sem o impacto, e eventualmente o mal-estar, gerado pelo espetáculo de produção, circulação e consumo que o homem oitocentista tinha diante dos olhos. 

Por outro lado, a colonização pôs os europeus em contínuo contato com populações distantes e a antropologia emergente, que acompanhou este processo, teve de se esforçar para inserir todas essas sociedades tidas como primitivas em uma lógica. 

E esta, foi uma lógica universalizante e evolucionista, baseada em Darwin, que colocava a Europa no cume civilizacional, chamada de evolucionismo cultural. 

 Eram eles que estavam mais evoluídos culturalmente e todas as outras deveriam através do desenvolvimento cultural chegar ao estágio europeu. E tal ideia como vimos, era muito ligada a capacidade de processar determinados materiais (ou métodos e técnicas) que moviam tecnologias responsáveis por “potencializar” a vida. - Algo desse gênero.  

O grande fluxo de objetos – machados, canoas, totens, vasilhas, colares, arcos, plumagens etc. –, que formou e enriqueceu as coleções das metrópoles, serviu de base material às interpretações dos estudiosos. 

O ganho de potencial explicativo dos objetos é, aliás, notório.  

Nos séculos anteriores, os gabinetes de curiosidades haviam sido regidos pela busca do extraordinário, do que se afastava das categorias convencionais 

Diferentemente, nas coleções etnográficas do século XIX, impera a lógica da taxonomia para o estabelecimento de padrões que permitiriam conferir concretude às ideias de um cientificismo que buscava inspiração nas ciências naturais, já bem avançadas em termos de critérios de verificabilidade do saber. 

Então eles correlacionavam uma ou outro objeto a características físicas de um povo, etc.   

e uma das consequências institucionais dessa lógica foi o fato de as coleções etnográficas serem abrigadas nos museus de história natural. 

  • A FISSÃO ENTRE CAMPOS DA ANTROPOLOGIA E DOS ESTUDOS DA CULTURA MATERIAL 

O colecionismo etnográfico marcou o estabelecimento da disciplina antropológica, mas não perdurou como norteador do seu método.  

O estudo dos objetos foi paulatinamente marginalizado e circunscreveu-se ao universo dos museus, no qual perseverou a lógica da coleta, da classificação e de análises cujo escopo eram os próprios artefatos, distinguindo um dos outros e reforçando a superioridade civil da Europa, através de um espetáculo programático. 

A afirmação do status de erudição dos estudos antropológicos, que muito eram provenientes da exegese bíblica e dos estudos textuais greco-latinos privilegiou o texto escrito como suporte da Antropologia.  

No início do século XX, na antropologia, as obras de Malinowski, Radcliffe- Brown, Franz Boas, entre outros privilegiaram o trabalho de campo e consagraram temáticas como as formas religiosas ou rituais, as trocas econômicas ou simbólicas, a organização institucional, sem falar no mito e no parentesco, que se imporiam rapidamente como problemas condutores da disciplina.  

O deslocamento foi amplo e coincidiu, grosso modo, com a passagem de uma perspectiva difusionista (em que a identificação da origem e o acompanhamento da migração das técnicas a partir da análise dos objetos eram centrais) para a abordagem funcionalista (que enfatizou os comportamentos sociais captados pela “observação participante”, sem grande intermediação dos documentos materiais).  

Se acrescentarmos que, nos passos subsequentes, a grande influência da antropologia francesa de Émile Durkheim e de Marcel Mauss impôs uma concepção de “fato social” amplamente abstrata, institucional e relacional, além de priorizar uma abordagem mais conceitual, entenderemos por que, durante a primeira metade do século XX, a cultura material permaneceu à margem das vias predominantes nas ciências sociais. 

NOVA ARQUEOLOGIA_________________________________ 

A arqueologia, por sua vez, permaneceu focada nos achados materiais, centrada nas relações entre os materiais arqueológicos e os perfis culturais a que pertenciam, entretanto, sem buscar interpretar sistemas sociais. 

Houve raras exceções e as teorias de Gordon Childe entre as décas de 30 e 40 sobre as “revoluções agrícola e urbana” vieram a mobilizar o evolucionismo e o difusionismo, sob forte influência dos escritos de Karl Marx, para explicar o processo de transição do neolítico, ou Revolução Agrária, e o aparecimento das sociedades complexas no antigo Oriente Próximo. Consistindo em um importante esforço analítico a partir da cultura material.  

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É contra o que considerava como acomodação descritiva e classificatória que a chamada New Archaeology se insurge nos anos 1960. 

Lewis Binford, precursor dessa nova escola sublinhava a íntima relação entre o campo da antropologia e o da arqueologia, e defendia o estabelecimento da arqueologia, não como uma técnica de obtenção de informações, mas o de uma ciência que produzia conhecimento a respeito do desenvolvimento das sociedades, embasada nos estudos antropológicos.  

Por isso, a nova arqueologia também ficou conhecida como arqueologia processual.  

Uma especial atenção foi dada às articulações do grupo com o meio ambiente e ao papel da cultura, inclusive a material, como mecanismo de adaptação.  

O advento da New Archeology potencializado pelo forte caráter panfletário de seus proponentes, provocou reações negativas e positivas, surtindo grandes mudanças de paradigma tanto na história quanto nos estudos de cultura material.  

A primeira delas diz respeito à formação do próprio campo documental 

Habitualmente, os objetos singulares e o conjunto do sítio haviam sido tomados como um dado estático, sem qualquer reflexão consistente acerca da transformação que os levara de realidades vivas, funcionando em um contexto social, até um depósito arqueológico. 

A New Archaeology introduziu as reflexões sobre a trajetória de artefatos e estruturas até a formação do sítio amparadas pela observação etnográfica da utilização dos elementos materiais nas sociedades vivas, a etnoarqueologia 

Além disso, começaram-se a fazer experimentações laboratoriais visando verificar o comportamento físico dos materiais e dos processos de decomposição e preservação.  

Buscava-se, assim, deslocar a atenção do sítio arqueológico como lócus documental para o assentamento como lócus sociológico de atividade humana (David; Kramer, 2001).  

Trata-se de um postulado que pode ser generalizado, com ganhos evidentes, para todo o campo da cultura material. 

O estudo das dinâmicas ser humano e ambiente, abordados pela nova arqueologia enfatizaram o sistema cultural e as articulações entre subsistemas tecnológicos, econômicos, sociais, em detrimento das configurações “civilizacionais”, porém com pouca ênfase nos processos culturais históricos e nas dimensões ideológicas relacionadas ao universo simbólico das sociedades estudadas.  

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A partir do fim da década de 60, o estruturalismo de Lévi-Strauss e a semiologia de Saussure foram responsáveis por uma forte guinada nas considerações a respeito da cultura material 

Baudrillard em seu livro Le système des objets, de 1968 e Moles em Théorie des objets, de 1972) influenciados por estes mestres, compartilhavam a intenção de descrever o papel das coisas materiais na sociedade de consumo moderna e, sobretudo, a valorização da função sígnica dos objetos.  

Soltar tríade de Pierce, modelo de Sausurre e falar sobre Barthes. 

Nessa perspectiva, a cultura material é equacionada a um sistema de comunicação por meio do qual as sociedades criam e expressam conteúdos discursivos de modo semelhante ao que ocorre com os códigos verbais. As significações dos objetos podem assim serem lidas através de análises linguísticas ou seja, são expressões representativas das realidades de mundo de cada cultura ao qual se correlacionam. 

O pansemiotismo colocava positivamente o problema dos significados na agenda das humanidades e contribuía para diluir a pretensa homogeneidade de uma gramática geral. 

*Escrever no slide: leitura pansemiotica de mundo 
Os dois elementos anteriores – o foco em sociedades mais contemporâneas e a abordagem semiótica – penetraram também na arqueologia.  

Para citar um pioneiro, o trabalho de escrever nome no slideJames Deetz sobre a cultura material do passado colonial norte-americano (In small things forgotten: an archaeology of early American life, publicado em 1977) não visava unicamente reconstituir visões de mundo comunitárias a partir de artefatos que até então haviam merecido uma atenção classificatória e pouco interpretativa; também incitava os arqueólogos a explorar perfis cronológicos e societários antes reservados a historiadores que se limitavam à documentação escrita. Ou seja, incentivava a compreender os objetos a partir de sua inserção em uma cosmologia de signos, símbolos, técnicas e costumes. 

 

 Nos anos 1970, a cultura material impôs-se à atenção de vários domínios, amalgamando tendências que contemplavam o crescente interesse pelas relações cotidianas e pelo compartilhamento de valores menos eruditos.  

A consolidação de uma sociedade de consumo de massas, após a Segunda Guerra Mundial, incitava os estudiosos a considerarem, na análise social, o universo das coisas materiais, particularmente em sua forma de mercadorias.  

Agora, a preocupação com os sentidos simbólicos do consumo é que se apresentava, até certo ponto, como novidade.  

Quem consome o que e porquê 

o deslocamento de foco do processo produtivo e da circulação − até então, no centro das atenções da economia e da sociologia para o consumo, entendido não somente como ato final da cadeia produtiva, voltado a suprir necessidades, mas também o momento de recepção de mensagem e expressão de valores em um sistema de comunicação. 

  Douglas e Isherwood buscaram avançar sobre os aspectos do consumo que haviam permanecido obscuros nas tradicionais teorias sociológicas, tais como as formas de construção da personalidade e da identidade social por meio do consumo de bens ou, ainda, os aspectos rituais que permitem ao consumidor moderno posicionar-se em um sistema desenfreado e emocionalmente desestabilizador de movimentação capitalista de bens (Douglas; Isherwood, 1996). 

A consideração do consumo como ato social criador de sentidos marcará intensamente a antropologia do consumo nos anos 1980 e 1990, reforçando a dimensão semiológica. 

 Na visão de um dos principais expoentes, Daniel Miller, o consumo é um fenômeno de interpretação, de geração e apropriação de sentidos mediante a mobilização dos bens. 

De modo semelhante, no campo da psicologia social insistiu-se sobre os papéis da cultura material na produção social do indivíduo, inclusive como elemento de estabilização do eu. 

Indivíduos constroem imagens de autodefinição a partir dos referenciais exteriores, inclusive materiais (Dittmar, 1992). 

 Já que por excelência a cultura material é dotada de uma fisicidade duradoura, capaz de garantir constância e continuidade das relações do sujeito com o mundo, tão caras a formação das identidades. 

Mais do que elemento de adaptação na relação com o meio, a cultura material passou a ser considerada prioritariamente em virtude de seu potencial de criar e comunicar sentidos.  

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década de 80, a partir de estudos de autores como Bourdieu e Giddens, Ian Hodder percebeu que os modelos estruturalistas eram excessivamente estáticos frente a uma sociedade dinâmica, e assim teorizou uma prática social mais apta a conferir aos indivíduos capacidade de atuação e interações mais ativas com as estruturas estabelecidas, uma arqueologia pós-processual começou a ser estabelecida em aproximação com a historiografia dos Annales, que começava a conferir maior destaque aos estudos dos fenômenos representacionais. 

 Predominou, em todo caso, a analogia entre a cultura material e o texto. Isto é, a utilização das ferramentas da linguística e da semiótica para a leitura (em palavras) dos elementos materiais. 

Marcelo Rede neste ponto ressalva: “A cultura material é, doravante, uma linguagem cujo código precisa ser decifrado.” 

Derrida e Foucault também contribuíram significantemente para o campo, já que sob a influência da hermenêutica e da fenomenologia, a explicação difundida sob modelos científicos cedeu lugar à interpretação, mais fluida, multifocal e que contemplava diferentes percepções culturais.  

Questionava-se, assim, ideologias, políticas e visões eurocentradas 

Jean-Pierre Warnier em 1999, começou a se ocupar do estudo das práticas sociais a partir das articulações entre o corpo e a cultura material. Sua noção se estalece sobre o fato de que a conduta corporal se dá em função de parâmetros materiais que oferecem possibilidades e impõe limites.  

Não se trata de focar apenas nas situações em que o corpo manipulava diretamente as realidades físicas, mas também de inserir no campo de observação as relações menos perceptíveis no cotidiano, como a disposição espacial dos elementos no ambiente frequentado pelo corpo. 

Mais ainda, na concepção defendida por Warnier, não se trata de analisar dois polos distintos, que se definem pela exterioridade de um em relação ao outro; pelo contrário, o universo material pode ser considerado parte da própria corporalida-de, em uma síntese que, longe de ser estática, implica interação dinâmica entre corpo, espaço e objetos, daí o foco da análise ser o processo de incorporação, entendida como a apropriação do universo físico mediada pelo corpo. 

FALAR DAS IMAGENS – recomendar anima 

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É difícil fazer uma avaliação das abordagens dispensadas à cultura material no âmbito da historiografia, uma vez que os contatos foram esporádicos e fragmentários, e nada equivalente aos debates arqueológicos ou antropológicos ocorreu entre os historiadores. Mesmo os annales tendo sido um canteiro de experimentos metodológicos e de intensas discussões teóricas, seria de se esperar que, entre os seus praticantes, a cultura material tivesse sido considerada seriamente como elemento da operação historiográfica. Mas isso não acontece.  

Fernand Braudel exerce forte contribuição a respeito da compreensão dos bens que estabelecem os horizontes de uma história socioeconômica. Mas trata-se, sobretudo, de uma incorporação temática, de uma atenção que realça os elementos materiais por trás das noções abstratas de capitalismo, mercadoria, circulação etc., sem implicar, porém, uma análise da cultura material propriamente dita, sem fazer dela uma fonte documental com direito à plena cidadania.  

No ano anterior, 1978, Pesez, limita-se a saudar a conveniência de um aumento dos corpora documentais pela inclusão da cultura material e das possibilidades novas que se abririam com ela, criticando o generalismo da incorporação dos dados arqueológicos na história. 

Nos anos seguintes, muitos trabalhos indicam que o apelo da Nouvelle histoire pela renovação das temáticas, incluindo a cultura material, foi atendido sem que, para tanto, fosse necessária uma reformulação profunda do arsenal analítico do historiador. 

O livro de Daniel Roche sobre o aparecimento das formas modernas de consumo é bem característico: uma forte atenção ao universo das coisas materiais e de seus papeis no jogo das novas sociabilidades que emergem na época moderna (algo já bem explorado pela obra de Michel de Certeau) convive com uma metodologia tradicional, fundada sobretudo na documentação escrita (Roche, 1997).  

Em outro caso bem conhecido, a inclusão de um tipo particular de segmento material, o iconográfico, pelos trabalhos de Michel Vovelle orientava-se, antes de tudo, pela ampliação do rol de fontes consideradas de maior potencial para abordar os fenômenos de mentalidade e suas temáticas conexas, como as visões acerca da morte, mesma lógica que, aliás, o levava a apostar fortemente nos registros cartoriais (Vovelle, 1974). 

 O impacto da renovação do repertório temático sugerido pelo autor – e acompanhado por muitos de seus colegas dos Annales – é limitado, entretanto, pela reprodução de um método semiótico que pouco contribuía para a renovação da análise iconográfica no campo historiográfico, mesmo que se considere um avanço outro ponto enfatizado por Vovelle: o tratamento serial. Nesse aspecto, a nova história francesa não se distinguiu muito da situação geral da historiografia, uma vez que houve pouco empenho em refletir sobre as dimensões materiais da organização social e timidez para inserir a cultura material na operação historiográfica. A seguir, abordaremos, sucessivamente, esses dois temas. 

p. 143 MATERIALIDADE E SOCIEDADE 

Um problema fundamental para avaliar as possibilidades de relação entre história e cultura material repousa na própria apreciação da dimensão material da realidade social. Como se dá a existência material desse conjunto de ações e de relações que chamamos so-ciedade? Um tanto paradoxalmente, a natureza física dos fenômenos humanos é tão ubíqua e impositiva que tendemos a negligenciá-la como um dado óbvio. No entanto, a começar pela própria constituição corporal – deste corpo que é o primeiro patamar físico com o qual lidar e do qual ter consciência −, passando pela paisagem, natural e artificial, e pela pletora de objetos, instrumentos, máquinas etc., a totalidade da ação humana é dotada de dimen-são física, ou, em outras palavras, a materialidade é subjacente à vida biológica, psíquica e social. A banalização dessa fisicidade traz consigo, porém, o risco de sua desconsideração no nível cognitivo. Vocacionadas a tratar de relações sociais, de ações humanas e de fenômenos abstratos (ainda que estes remetessem à mais palpável concretude), as ciências sociais reper-cutiram, cada qual a seu modo, a tendência à desmaterialização de seus objetos. 

O problema se insere na longa tradição, no pensamento ocidental em geral, não so-mente de um dualismo entre a materialidade e a imaterialidade (que se manifesta diver-samente: material versus ideal; matéria versus mente; sensorial versus abstrato, e assim por diante), mas também de uma hierarquização que confere status superior ao segundo termo da equação em detrimento do primeiro, com repercussões importantes na forma como percebemos o mundo (Prown, 1982, p. 2). De fato, em ampla medida, a marcha triun-fante do linguistic turn, nas últimas décadas do século XX, e suas manifestações no campo da antropologia simbólica, da arqueologia pós-processual e do multiculturalismo em geral – com sua ênfase nos discursos, nos significados e nos fenômenos representacionais, e sua aposta em instrumentos analíticos linguísticos e na interpretação subjetiva – lançavam ra-ízes em terrenos profundos do pensamento idealista (Boivin, 2008, p. 13). A precedência é conferida ao pensamento, que, por sua vez, é concebido como instância em que se gera o comportamento, e somente a partir daí a interação com o mundo material entra em li-nha de consideração, situando-se no final da cadeia: pensamento-comportamento-matéria. Reproduz-se, assim, o dualismo cartesiano e algumas de suas implicações ao se separar conceitualmente, de um lado, a mente, o pensamento, a linguagem e, de outro, o corpo, a prática e a matéria (Knappett, 2005, p. 3, 6). 

Outro aspecto paralelo a ser notado é a centralidade do humano. Pode parecer natural que, nas ciências humanas, o humano ocupe um lugar que não só é axial, mas também ordenador, no sentido de estabelecer a subordinação e a posição periférica dos demais ele-mentos. Trata-se, porém, de um antropocentrismo artificialmente construído pelo próprio sujeito do ato de conhecimento, e não de uma condição inscrita na própria realidade. Além disso, o “homem” de que estamos falando é uma entidade abstrata, conceitual, apartada de sua própria materialidade, inclusive corporal, e posto à margem e acima do mundo animal no interior do qual deveria ser considerado. É um homem supraorgânico e supramaterial a partir do qual foram construídas as noções teóricas de sociedade e cultura, assim como seus contrapontos necessários: o animal, o material, o natural (Boivin, 2008, p. 15). 

A superação dessa situação constitui a principal e mais recente fronteira do debate sobre a cultura material, particularmente intenso a partir dos últimos anos do século XX. O movimento de reação é amplo, pois se trata de, diante das ciências humanas humanizadas em demasia, resgatar as dimensões biológicas e ecológicas do homem e, para o que mais nos interessa aqui, reconsiderar o social em sua interação com a materialidade. Ao império do linguistic turn opõe-se, pois, um material turn. Em vários domínios, o culturalismo, que tendia a desmaterializar os objetos (também entendidos como objetos de estudo), foi con-frontado por apelos no sentido de uma rematerialização das realidades, da formulação de teorias orientadas pelos objetos, da valorização dos atores não humanos, fossem eles animais ou materiais, da superação da oposição entre coisas e relações, enfim, da incorporação das fontes materiais no processo de conhecimento (cf. Hicks; Beaudry, 2010, p. 3). Por exten-são, propugnou-se abordagens que fossem além da analogia textual para a compreensão do papel das coisas materiais, não apenas em virtude dos limites metodológicos intrínsecos que uma semiologia de origem linguística apresenta ao ser aplicada à cultura material (ou às imagens), mas também porque, ontologicamente, tal concepção situava o processo de sig-nificação em uma sede cultural autônoma, desencarnada dos elementos (físicos, imagéticos) que vetorizavam os sentidos. Atacava-se, assim, a ideia de que a interação com o universo físico seria secundária, um ato que apenas concretizava uma comunicação formulada em uma instância puramente mental, na qual os significados eram culturalmente compactua-dos (Olsen, 2003, p. 88). 

Vê-se bem que, na base de todas as dificuldades, há a recorrente cisão entre, de um lado, a cultura ou a sociedade e, de outro a matéria. Mais ainda, vemos que toda uma tradi-ção localizou o princípio ativo, gerador da ação humana, em uma esfera altamente mentali-zada de padrões culturais ou de interações sociais amplamente abstratas. A cultura material foi, assim, reduzida à passividade, isto é, não sendo dotada de capacidade de ação por si só, é somente o reflexo, fisicamente concretizado, dos impulsos de uma matriz que a precede e que lhe é exterior. Se voltarmos, como um exemplo, ao problema do sentido, reencontrare- mos a oposição entre a representação conceitual do significado, atributo de uma imanente inteligência humana, e as decorrentes manifestações materiais do significante. A precedên-cia e a ascendência do mental sobre o natural só pode ser, portanto, superada se aceitarmos que a própria formulação conceitual (de valores, significados etc.) se dá na interação com a materialidade e que, em um quadro de relações complexas, as capacidades de atuação não se limitam exclusivamente aos atores humanos. Também as coisas são dotadas de anima-ção, também elas exercem força motriz, também elas atuam socialmente, conformando um quadro de referências, possibilidades e limites ao agente humano, independente de este ter consciência disso ou não. Longe de ser passivamente estruturada pelo homem, a materiali-dade, pela sua própria fisicidade, age como estruturante da ação humana, e a propriedade de agir, a aptidão a operar (expressas, normalmente, pelo termo agency na literatura em língua inglesa), antes reservadas ao humano, estendem-se agora à cultura material, sugerindo uma articulação, e por que não dizer, uma coexistência mais simétrica entre as várias dimensões da realidade. É nessa convivência que matéria e sociedade criam-se mutualmente (Hicks; Beaudry, 2010; Olsen, 2003; Boivin, 2004 e 2008). 

Essas são propostas recentes no campo de estudos da cultura material, o que tor-na compreensível a pouca teorização a seu respeito. Em alguns outros campos, todavia, o mesmo ímpeto já tem uma trajetória mais consolidada, apontando para a formulação de sínteses, e dois deles mereceriam uma rápida menção. 

A partir dos anos 1990, os estudos de ciência e tecnologia foram paulatinamente ferti-lizados pela sociologia do conhecimento científico, e uma das consequências foi a busca de um melhor entendimento dos objetos tecnológicos e de seu papel ativo na sociedade como articuladores da ação no mesmo patamar que os agentes humanos. Tais considerações se dão, no entanto, no bojo de indagações filosóficas de fundo, e um nome central aqui é o de Bruno Latour, filósofo e sociólogo das ciências francês (autor, entre outros, de Nous n’avons jamais été modernes: Essai d’anthropologie symétrique, de 1991), que propõe que o sistema de pensamento com que estamos há muito habituados promoveu uma injustificável separação ontológica entre o humano e o não humano, elegendo o homem como medida universal e principal agente no mundo. Trata-se, porém, segundo Latour, de uma ruptura historica-mente contextualizada, instaurada pela ciência moderna, embora com raízes anteriores. É a decorrência de um triunfo do humanismo que exila, para além das fronteiras da ação social, a natureza, o mundo animal e a matéria. Nas concepções pré-modernas, pelo contrário, não se poderia identificar nenhuma distinção significativa entre pessoas e coisas, entre cultura e natureza. A Teoria do Ator-Rede (Théorie de l’Acteur-Réseau, mais conhecida por ANT, sigla inglesa de Actor Network Theory), formulada por Latour e outros, como Michel Callon e John Law, busca reordenar os elementos que compõem a realidade de modo mais equilibra-do, mediante composições híbridas, que põem em interação os diversos agentes, humanos e não humanos. Mais do que agrupamentos homogêneos (a sociedade dos homens, por exemplo), que se relacionam com outros agrupamentos mais ou menos estáticos (como o mundo dos objetos), o conjunto da realidade é visto como redes em que atores mais hetero-gêneos associam-se em configurações cambiantes, e as entidades, inclusive sociais, existem a partir das relações, não as precedem. No campo do estudo das imagens, contribuições muito semelhantes se desenvolveram sobretudo a partir do trabalho póstumo de Alfred Gell (Art and agency:an anthropological theory, de 1998). Imagens, para Gell, não podem ser consideradas somente como reflexos de um processo de criação e transmissão de sentidos, uma vez que elas são dotadas dos atributos da ação e são parte de um sistema que, funcionando em rede de conexões, gera efeitos concretos sobre os agentes implicados. As imagens são vocacionadas para atuar na sociedade e, pelos seus próprios atributos plásticos, intervir concretamente no curso dos acontecimentos, nos comportamentos humanos. É verdade que Gell considera a imagem (eos objetos em geral) como um agente secundário, cuja atuação se dá a partir da ação so-cial dos humanos; no entanto, uma vez no circuito, os elementos de seu desempenho lhe são próprios, e não conferidos de fora pela percepção que os humanos têm deles. É, certamente, uma posição mais moderada do que aquela de Latour, mas aponta, grosso modo, no mesmo sentido, mesmo se Gell esteve mais preocupado com os modos pelos quais os objetos artísticos servem como meio da atuação dos agentes humanos. O impacto das ideias apresentadas anteriormente alterou consideravelmente a agenda de debates no âmbito dos estudos da cultura material, deslocando a ênfase das questões simbólicas, representacionais, para o campo mais concreto da atuação das coisas materiais e da própria materialidade da sociedade. Talvez ainda seja cedo para avaliar os benefícios de tal perspectiva e, igualmente, ponderar as críticas que já começam a despontar, mas seria interessante, contudo, convidar o historiador a não permanecer insensível às suas implicações, pois, ao olhar para as realidades que estuda, dificilmente poderá enxergar unicamente uma atividade humana em vias de moldar e manipular um universo físico totalmente inerte; outra perspectiva e novas ferramentas de análise serão necessárias para criar um saber histórico que já não será somente, segundo a fórmula convencional, acerca do homem no tempo, mas também sobre a trajetória de uma materialidade viva. 

CULTURA MATERIAL ENTRE HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA 

Em um texto seminal, Ulpiano Bezerra de Meneses oferece algumas balizas consistentes para o tratamento propriamente histórico da cultura material. Ao definir cultura material como todo aquele “segmento do meio físico que é socialmente apropriado pelo homem” (Meneses, 1983, p. 112), o autor enfatiza a intervenção humana que opera a sociabilização da materialidade. A noção de apropriação é, portanto, elemento crucial, pois é por meio dela que a sociedade, a partir de padrões culturalmente estabelecidos e compartilhados, estabelece suas múltiplas interações com o universo material, moldando-lhe a forma, conferindo-lhe papeis e atribuindo-lhe significados. Não se trata, entretanto, de um processo de mão única, pois a cultura material é entendida, a um só tempo, como “produto e vetor de relações sociais” (Meneses, 1983, p. 113); produto porque resulta da ação humana, de processos de interações sociais que criam e transformam o meio físico, mas também vetor porque constitui um suporte e condutor concretos para a efetivação das relações entre os homens. Conviria insistir sobre o fato de não haver uma relação de causa e efeito unívoca que situe as relações sociais na origem de um processo concebido abstratamente. Ao contrário, já no ato de sua concepção, o conjunto de representações, de valores e de ideias que subsidiarão as práticas sociais traz a marca de sua materialidade. Se, no campo de visão do observador, a iniciativa, a decisão de agir (a agency) aparece como um atributo de atores humanos, é preciso reconhecer que se trata de uma ilusão à qual fomos habituados pela excessiva concentração de nossa atenção na ação humana. A interação entre sociedade e materialidade tem mão dupla, e o conjunto de representações e práticas que constituem a ação social não é concebível sem sua dimensão física. 

Também não é concebível sem sua dimensão temporal. Impõe-se, portanto, dar conta da dinâmica de transformações por que passam não somente os humanos – em sua dupla condição, biológica e social −, mas também a cultura material. Em outras palavras, longe de formar um cenário estático, também as coisas físicas têm uma trajetória, uma vida so-cial com sucessivas mutações. Poderíamos mesmo falar, sem medo de paradoxos, de uma “biografia das coisas”. De fato, como vimos, o mundo material foi considerado algo fixo, sem uma dinâmica própria, com sua única força motriz de transformação sendo imposta de fora para dentro. Nessa perspectiva, no nível analítico as coisas são percebidas em um estado mais ou menos congelado, como se sua existência em dado momento fosse parte de uma condição inerente e perene. Autores como Arjun Appadurai e Igor Kopytoff demons-traram, no entanto, que tais condições são transitórias e que as qualificações predominantes em certos momentos (por exemplo, a de mercadoria) expressam estágios de um processo (Appadurai, 1986). Talvez, escrevendo na década de 1980, esses autores tenham enfatizado demasiadamente que as mutações no universo físico decorrem de atribuições de valores de um sistema cultural, mas o essencial a reter, contudo, é a extensão das dinâmicas temporais às coisas materiais. 

O trabalho do historiador intervém justamente nessa sucessão de estados da cultura material, e isso duplamente: em primeiro lugar porque, observando os contextos originais em que as coisas tiveram sua existência social, o estudioso deve estar atento para suas muta-ções, para o fato de que a cultura material, em consonância com todos os demais elementos da sociedade de que faz parte, tem sua historicidade e, em segundo lugar, o próprio trabalho de análise implica uma dessas mutações, e considerar a cultura material como documento é atribuir-lhe um valor específico, de condutor de informações, situando-a, ao menos pro-visoriamente, em um estágio terminal. A inserção da cultura material das sociedades do passado (e também do presente) na operação de conhecimento supõe uma alteração radical na própria natureza das coisas, um esvaziamento dos predicados que lhes eram próprios nos contextos sociais e, no mesmo movimento, a atribuição de outras potencialidades, de caráter epistemológico. O documento só existe, portanto, por intervenção do historiador. Ciente dessas metamorfoses e de suas implicações, Meneses propõe o que seria o procedi-mento metodológico elementar, a “desdocumentalização”, ou seja, por intermédio de um ato intelectual, imaginar a cultura material reinserida em seu contexto, funcionando como coisa socialmente viva, a fim de, só então, poder explicar seu papel histórico e suas intera-ções com os homens (Meneses, 1983, p. 110). Essa inversão metodológica, que permite ir do documento descontextualizado (ou melhor, inserido em outros contextos: o museu, o arquivo etc.) ao objeto em seu contexto (ou sucessão deles) aplica-se, no fundo, a qualquer suporte de informação, material ou textual, oral ou iconográfico, embora nem sempre isso fique claro no trabalho historiográfico. 

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