Paulo Freire e o Método que Ensinou o Brasil a Ler o Mundo

O Método Paulo Freire de Educação de Adultos

O primeiro teste do Método Paulo Freire de Educação de Adultos aconteceu em Angicos, no interior do Rio Grande do Norte, próximo a Mossoró. Ali, professores, estudantes e pessoas de diversas áreas — muitas delas ligadas ao Movimento de Cultura Popular do Recife — participaram de uma experiência coletiva que sonhava transformar a pedagogia de adultos no Brasil em um instrumento criativo de libertação. A proposta era mais do que ensinar a ler e escrever; era alfabetizar de dentro para fora, por meio do próprio trabalho das pessoas, promovendo uma nova percepção de mundo.

O método não se limita a ser uma técnica: ele representa uma educação fundamentada em filosofia, práxis democrática e transformação social. Como definiu Crispiniano Neto, é “uma coisa real, que fura como punhal, ferindo quem está ditando”. Dinâmico e vivo, o método se recria à medida que é utilizado. Paulo Freire investiu em uma educação libertadora, contrária às formas patriarcais e doutrinárias, defendendo que o ensino deve se reinventar junto com o mundo que transforma.

Diferentemente dos métodos tradicionais, que oferecem materiais prontos (cartilhas, cadernos, exercícios) baseados na ideia de “ensinar” ao invés de dialogar, o método freiriano entende que o verdadeiro processo pedagógico nasce da escuta e da construção conjunta. A cartilha tradicional, com seu conteúdo padronizado, trata o educando como um vazio a ser preenchido. Já a abordagem de Paulo Freire considera que o educador também aprende enquanto ensina, e que não deve trazer um saber pronto de fora, mas construir com o educando, num processo de diálogo e respeito mútuo.

Paulo Freire criticava a educação que desvela o segredo da escrita, mas vela o da vida. A fala doutrinária, segundo ele, sempre carrega arbitrariedade. O sistema de ensino convencional perpetua a dominação social de raça e classe por meio da chamada “cultura do silêncio”, que suprime os caminhos para o pensamento crítico. Seu método é, portanto, um instrumento de conscientização e emancipação.

O impacto inicial do método foi expressivo: em apenas 45 dias, cerca de 300 trabalhadores foram alfabetizados, impressionando a opinião pública. O plano de ação de 1964 previa a criação de 20 mil círculos de cultura, capazes de alfabetizar cerca de 2 milhões de brasileiros naquele ano. No entanto, com o golpe militar, a Campanha Nacional de Alfabetização — idealizada por Paulo Freire — foi denunciada como “perigosamente subversiva”. A repressão se intensificou até 1968: educadores foram presos, projetos condenados. Paulo Freire foi um dos primeiros presos e acabou exilado por 16 anos, indo para o Chile com a família, o sonho e o método.

No Chile, o país se destacou mundialmente por seu trabalho com educação de adultos, sendo reconhecido pela UNESCO como um dos cinco que mais contribuíram para a superação do analfabetismo. Em Genebra, Freire criou, com outros exilados, o Instituto de Ação Cultural (IDAC), que levou a proposta freiriana a diversos países da África, onde, após a libertação política, lutava-se também pela liberdade de aprender.

O método parte de uma ação dialógica entre educadores e educandos, começando com uma prática coletiva entre os participantes do programa e a comunidade. A etapa zero é a pesquisa do universo vocabular, cujo objetivo não é científico, mas sim descobrir os vocábulos mais usados pela população-alvo. Nessa fase, explora-se a vida e o trabalho: como os lavradores lidam com a terra, como as mulheres cuidam dos filhos — tudo importa. Ditados, provérbios, maneiras de falar, cantar ou versejar são colhidos com sensibilidade.

As reuniões, sejam organizadas ou espontâneas (como rezas, festas e encontros no sindicato), servem como espaços de pesquisa e troca. Os próprios participantes são incentivados a colaborar e avaliar o andamento dos trabalhos. Frases e expressões marcantes são registradas para uso posterior nos círculos de cultura. Dessas frases surgem as palavras geradoras, ponto de partida do processo de alfabetização.

É essencial evitar a lógica tradicional da pesquisa, onde o pesquisador observa o pesquisado de fora. Aqui, tudo se dá através de relações e temas geradores que emergem do contato direto. A equipe deve anunciar claramente que esta é a primeira etapa do método. Ao final dessa fase, a equipe terá construído algo essencial: conexões com a comunidade, materiais de pesquisa autênticos e uma base afetiva e simbólica.

Na etapa um, busca-se a menor unidade da pesquisa: as palavras geradoras, que guiam a dupla leitura proposta por Freire — da realidade social e da palavra escrita. Essas palavras devem atender a três critérios: 1) riqueza fonêmica; 2) dificuldades fonéticas da língua; 3) densidade pragmática do sentido. A melhor palavra geradora é aquela que carrega possibilidades fonéticas, sentido simbólico e potencial de conscientização.

Palavras como “chuva”, “enxada” e “lavoura” para lavradores, ou “favela”, “tijolo” e “salário” para operários, têm significados diretos, afetivos e críticos. Elas evocam realidades vividas e são carregadas de memória. Um conjunto de 16 a 23 palavras costuma ser suficiente, desde que respeite os critérios e represente o modo de vida da comunidade.

Por exemplo, numa campanha nos morros e favelas do Rio de Janeiro, as palavras escolhidas foram: favela, chuva, arado, terreno, comida, batuque, poço, bicicleta, trabalho, salário, profissão, governo, mangue, engenho, enxada, tijolo, riqueza. Cada uma acompanhada de um núcleo de questões existenciais e políticas para discussão nos círculos de cultura. Assim, “batuque” remete a cultura popular, folclore, alienação cultural; “governo” leva à discussão sobre poder político e participação popular.

Em outras regiões, como no sertão de Goiás, palavras como “Benedito” e “Jovelina” foram escolhidas por seu apelo afetivo e cultural, sugerindo um casal de trabalhadores rurais. O conjunto de palavras deve refletir os laços sociais da comunidade. Em experiências mais simples, o trabalho pode parar na escolha das palavras geradoras, quando o foco está no aprender a ler e escrever, sem avançar ao debate crítico.

Já a etapa dois consiste em buscar uma visão mais ampla, com os temas geradores. Nessa fase, aprofunda-se o debate sobre as questões evocadas pelas palavras. Palavras como “trabalho”, “roçado” e “farinha” contêm memórias de luta, fome, resistência e esperança. São palavras carregadas de história e emoção. A partir delas, se abrem caminhos para a construção de uma linguagem crítica e transformadora, que é, em essência, o objetivo do método Paulo Freire.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Documento como Monumento: Poder, Memória e a Crítica Histórica

Novos Domínios da História - Cap. 7 História e Cultura Material (Marcelo Rede)