A história continua - Introdução (fichamento)
DUBY, Georges. A história continua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993, 162p. (caps. III, IV)
Sobre o livro e o autor
- George Michael Claude André Duby (Paris, 7 de outubro de 1919 - Aix-en-Provence, 3 de dezembro de 1996) foi um historiador francês, especialista em Idade Média. (wikipedia)
- Um dos maiores historiadores franceses escreve sua história, buscando fazer um balanço próprio, que é também o de toda uma geração de historiadores. Nesse percurso intelectual, na verdade uma 'ego-história' de título alusivo, Georges Duby mostra o quanto seu ofício é atualmente o delicado casamento de uma obstinação monástica e de uma obstinada vontade de viver no presente. O itinerário de Duby ilustra maravilhosamente o da pesquisa histórica francesa, que passou, em algumas décadas, do estudo dos grandes acontecimentos àquele mais sofisticado da vida privada e das relações humanas. (amazon)
Introdução
p.7
- Em 1942, a guerra entrou em sua fase mais dura.
- O autor havia acabado de se tornar professor de jovens no liceu.
- Por ambição de ascensão no cargo para professor de ensino superior e por amor à pesquisa, o autor se encontrava em busca de uma temática para uma tese de doutoramento.
- O autor conta aqui pois, a trajetória de seu ofício na escola francesa, caminho seguidos por muitos da mesma estirpe.
Cap I – A escolha
p.9
- Sob a influência de Jean Déniau, Duby havia se convertido à história da Idade Média.
- Cabia a si, situar-se em um posto dentro deste vastíssimo domínio.
- “Na época a que me refiro, a maioria dos historiadores conceituados contentava-se ainda com o estudo do poder político, militar ou religioso, nas suas manifestações exteriores. Dedicavam-se à reconstrução de uma cadeia de acontecimentos, pequenos e grandes, interrogando-se sobre os seus atores e sobre as causas acidentais, ou então, atendiam à evolução e ao jogo formal das instituições.”
- Todavia, desde os anos 30, um grupo de historiadores mais arrojados voltava sua atenção para os fenômenos econômicos.
- “Inspirando-se em modelos construídos pelos economistas a partir das noções simples de crescimento e de crise, procuravam distinguir o modo como no passado havia evoluído o valor das coisas, esforçando-se por determinar ciclos e tendências de longa duração.”
- “Para isso, começaram a revolver nos arquivos, fundos até então abandonados porque pouca informação ofereciam acerca dos grandes feitos dos políticos e dos militares.”
- Recolhiam dados numéricos e financeiros destes arquivos, recorrendo a métodos estatísticos ainda sumários para trazer em germe não só os “três estados sobrepostos da duração” (acontecimento, a conjuntura e a estrutura), mas também a “vontade de medir, avaliar, quantificar toda a força, a obsessão do número, da medida, da curva, ou seja, o gênero de história chamada serial e cujo êxito se deveria confirmar em França após 1950”, a propósito das demografias antigas.
p.10
- Certos períodos da história prestam-se melhor do que outros a levar por diante investigações deste tipo. Ao estudar tais períodos, os historiadores podem retirar dos textos séries contínuas de números.
- A Idade Média tardia é um desses períodos, no limiar do século XIV, a partir do momento em que as gentes da pena e das contas se tornam numerosas junto dos príncipes e começam a fazer enumerações de todos os géneros.
- O historiador Henri Pirenne foi precursor observava neste período os movimentos comerciais deste novo meio urbano emergente em busca das “origens do capitalismo”.
p.11
- Entretanto, esta linha de pesquisa histórica começa a sugerir que os estudos deveriam passar da história econômica para a história das sociedades. “Os meus antecessores faziam-no já e eu próprio me dispunha a fazê-lo.”
- Contudo, em 1942, a economia ocupava a cena. A história social vinha como “comparsa subordinado” da história econômica. - “o comércio em primeiro lugar (as estatísticas), em seguida os homens”.
- Além disso, as cidades ocupavam posição de maior relevância nos estudos, depois as zonas rurais limítrofes.
- Duby, o autor conta que sua escolha foi diferente, decidiu-se por focar nas sociedades feudais, “cujos alicerces se erigiram numa época em que as cidades e os comerciantes não tinham qualquer valor, em que tudo se encontrava embutido na ruralidade.”
- PQ? Porque antes de formado pelos historiadores, era formado por geógrafos, e estes tinham o aconselhado a ler os Annuales d’historie économique et social e Marc Bloch. (???)
p.12
- “O geógrafo olha uma paisagem e esforça-se por explicá-la.”
- Sabe tratar-se de um artefato cunhado pela ação coletiva do grupo social ali instalado. Portanto, atenta-se aos traços físicos (materiais), mas também pelas forças (humanas) responsáveis por sua configuração e pelos processos históricos que as orienta.
- Uma outra concepção de história;
- “Muito mais carnal, apetecível, e sobretudo mais útil que essa outra, superficial dos indivíduos (...) cujas decisões parecem comandar os fervores do acontecimento, me parecia a história do homem comum, do homem em sociedade.”
- “Adivinhava, sobretudo, que uma sociedade, como uma paisagem, é um sistema de que múltiplos fatores determinam a estrutura e a evolução, que as relações entre esses fatores não são de causa e efeito mas de correlação, de interferência, e que é um bom método, num primeiro momento, examiná-los um por um, pois cada um deles age e evolui segundo o seu próprio ritmo, mas que se torna imperativo considerá-los na indissociável coesão que os reúne se queremos compreender o funcionamento do sistema.”
p.13
- O autor disse que percebia que as forças materiais não prevaleciam sobre aquelas que dependem da cultura. “Estas considerações preparavam-me a lançar por terra todas as relações de subordinação entre história econômica e a das sociedades” Aqui se eu bem entendo, quer dizer que ele começou seu trabalho enquanto pesquisador historiador deixando de lado a crença de que as sociedades evoluem na medida que se desenvolvem economicamente. (perguntar ao professor).
- “Não menos decisiva foi a íntima relação que mantive com os Annales d’historie économique et sociale.” - Estudou sistematicamente todos os 10 exemplares da primeira coleção (1929 a 1939).
A coleção foi sucessivamente renomeada como Annales d'histoire sociale (1939–1942, 1945), Mélanges d'histoire sociale (1942–1944), Annales. Economies, sociétés, civilizations (1946–1994) e, finalmente, Annales. Histoire, Sciences Sociales em 1994.(wikipedia)
- “Os artigos de fundo tinham-me impressionado vivamente, menos contudo, creio, que os resumos, as notas críticas, os prefácios assinados pelos dois diretores, Lucien Febvre e Marc Bloch.”
- “Desta leitura assídua retirei dois ensinamentos:
1- Que o historiador não se deve fechar na sua troca, mas antes seguir atentamente o que se passa nas disciplinas próximas.
2 - Que conduzir uma investigação com todo o rigor exigido não obriga, quando se trata de divulgar os resultados da pesquisa, a escrever com frieza, que o investigador cumpre tanto melhor a sua função quanto mais agrada aqueles que o leem, quando os seduz e agarra pelos dotes de estilo.”
p.14
- Desde os 18 anos Duby se inspirava nos trabalhos de Bloch, não obstante, o lançamento dos dois volumes em 1939 e 1949 de La Societé Féodale foi decisivo.
- “Antes de mais o título: havia sido escolhido como um manifesto afirmando que a história social não é um simples apêndice da história econômica, e que é legítimo, frutuoso, necessário, estudar por si mesma uma sociedade antiga.”
- Além disso, o livro é ousado, traz problemáticas complexas como por exemplo o convite a “compreender o comportamento dos guerreiros do século XII, ao testemunho da literatura de diversão, que os abrilhantava, das canções de gesta e dos romances de cavalaria que lhes propunham modelos de conduta.” (...) pistas que nós seguimos na intenção de penetrar até às estruturas mais profundas de uma cultura”.
Cap II – O Patrono (essa parte é menos relevante)
p.15
- “Eu devia escolher não só um tema, mas também um patrono” (ou orientador)
- “O patrono parecia naturalmente decidido Jean Dénieu. Mas Dénieu desejava facilitar minha carreira e resolveu apagar-se.” incitando a necessidade de a tese ser defendida na Sorbonne para que fosse relevante no meio acadêmico da época.
- Apesar de não ter encontrado com Bloch, que em 1942 havia desaparecido na clandestinidade, Duby considera seu discípulo por ter aprendido constantemente com o historiador através de suas obras.
- “O Patrono parisiense que Dénieu me escolheu foi Charles-Edmond Perrin.” - Que era intimamente ligado a Bloch; havia se juntado à produção dos Annales e também havia se enveredado pelo mesmo caminho que conduzira Duby a leitura de La Societé Féodale.
p.16
- As pesquisas de Perrin tinham “esclarecido toda uma considerável parte da história social.”
- Para explicar relações entre os súditos e seus senhores nos campos da Lorena, o autor recorria à história do direito.
- “Partia de documentos muito áridos, desses inventários onde, nos tempos carolíngios, um senhor de um grande domínio mandava anotar o que poderia esperar das suas terras, o que tinha direito de exigir aos camponeses dependentes de seu poder.”
- "Essas longas listas de rendas, rendeiros, serviços, parcelas, haviam ajudado a gerir melhor o patrimônio dessas instituições religiosas onde, sob tutela de imperadores e o impulso de um renascimento do documento escrito, se aperfeiçoava para a glória de Deus e a exploração das riquezas do mundo. Em seguida, e durante gerações, os administradores tinham se servido dos mesmos pergaminhos. Mas seriam obrigados, de tempos a tempos, copiando, rasurando, acrescentando, a pô-los em dia. Perrin tinha reunido todos os documentos desse tipo, por acaso conservados, e depois, com uma extrema minúcia, tinha feito o levantamento, um por um, numa espécie de palimpsestos, de cada um dos extratos que se tinham sobreposto ao texto inicial, tentando distinguir, pelos retoques, substituição dos nomes próprios, dos números, das palavras, o modo como se tinha modificado, entre os séculos XI e XII, o poder do senhor e a condição dos homens e das mulheres que para ele trabalhavam.”
- Portanto, Perrin aliava a erudição austera às “vanguardas da curiosidade histórica”.
p.17
- Perrin, na primeira visita de Duby, lhe dera dois conselhos:
1 - Não se apressar, ler bastante, ver claramente em que ponto se encontrava a investigação a fim de fixar no terreno mais fértil e sob o ângulo que melhor correspondesse ao seu temperamento.
2 – Antes de definir o tema, e de lhe precisar o plano, agarrar-se a um documento de fácil acesso, já editado, impresso ... mas um bom documento, de forte consistência, um filão rico, e que permanecesse ainda quase virgem. “Lendo sob esse ângulo o trabalho dos outros, meditaria acerca das frases desse texto, imaginaria um questionário. Regressado a casa, abri a obra que me tinha sugerido que lesse. Mergulhei nela e durante muito tempo não a abandonei. Aí descobri o território onde me fixar, com o propósito de melhor conhecer, na esteira de Marc Bloch, o que havia sido a sociedade feudal.
Cap III – O material (p.19 a p. 28)
p.19
- Recueil des chartes de l'abbaye de Cluny, elaborado por Augustin Bernard, completado, revisto e publicado por Alexandre Bruel foi a obra que Perrin havia recomendado a Duby. E dali o autor retirou o essencial do material que usou em sua pesquisa.
- Os autores do Recueil tinha começado a decifrar o conteúdo de um cartulário que reunia a transcrição dos títulos de posse e privilégios da comunidade de Frades de Cluny.
- A feitura deste cartulário, decidida nos últimos anos da administração do frade Odilon, fora realizada um pouco mais tarde, numa época que o mosteiro se tornava cada vez mais esplendoroso e rico, atiçando a cobiça de outros, e, portanto, tendo que consolidar os alicerces da sua reputação e defender mais atentamente os direitos que usufruía sobre as terras e as gentes.
p.20
- Entretanto foi decidido que se copiassem os manuscritos desde a fundação, manuscritos que se amontoavam a mais de um século nos armários. Cluny fora fundada no início do século X.
- Os livros permaneceram nas salas dos copistas onde “continuaram a ser utilizados “(...)por muito tempo, inscrevendo-se dia a dia nas páginas deixadas em branco a cópia das atas que se acabavam de lavrar, apesar de, com o correr do tempo, isso se fazer com cada vez mais negligência.” - “Bernard e Bruel quiseram reunir tudo o que não se tinha perdido dos arquivos cluniacenses e partiram à procura das peças originais.”
- Muito havia sido perdido “antes, durante e após a Revolução”. Entretanto, encontraram numerosas transcrições feitas por “diligentes palcógrafos” do final do Antigo Regime.
- “O Recueil reúne assim mais de cinco mil e quinhentos documentos, de toda natureza e de todas as dimensões. Tinha os à minha frente.”
- Tratava-se de diversos registros de transações da instituição direta, ou indiretamente (por aqueles que a compunham em suas esferas mais pessoais), mas que podiam remontar diversas histórias e interesses. Tudo em completa desordem.
p.21
- “Uma torrente de palavras, de nomes, escapava-se do Recueil, palavras cujo sentido perdido teria de encontrar.”
- Não obstante, pelo afinco da instituição em manter registros recorrentes de tudo o que acontecia, o material era extremamente profícuo. Diferentemente de períodos correlatos devido a obscuridão do período feudal.
- Na verdade, no início dos anos mil é começam a surgir vida nos documentos, anteriormente o ofício era feito de maneira maquinal, sob padrões muito restritivos, porém nesta época o direito começa-se a provar por palavras e por gestos. -> Criando ênfase na argumentação dos documentos cunhados para tal fim.
p.22
- “Os frades encarregados de velar sobre o patrimônio devem, a partir de então, compor eles próprios uma espécie de resumo desses palavrosos judiciários, a fim de guardar em memória o que aí se disse, o nome dos homens que, nesse dia presentes, ouviram pronunciar tal juramento, viram tal cutelo, tal ramo, tal pedaço de terra (...)”
- “Alguns desses processos verbais são verdadeiras crônicas (...)”
- Entretanto, no fim do século XII os formulários começam a reaparecer, e os documentos profícuos a desaparecer. Os escrivãos esforçam-se para alongar as linhas, por estarem sendo pagos. A substância útil ao historiador diminui e acaba por se reduzir, como no século X, ao que fica inscrito no espaço vazio das fórmulas.
- À medida que estudava o Recueil o autor pôde precisar o período mais adequado às investigações que queria levar a cabo.
- Portanto, não fixara esse período de antemão, mas este veio a estabelecer-se durante sua pesquisa.
- O Período de sua pesquisa era estes dois séculos (XI e XII) e as três ou quatro décadas que os antecederam e que os sucederam.
p.23
- “Ao mesmo tempo, reconhecia qual o espaço que se prestaria melhor a observação, aquele onde as fontes se ofereciam com particular densidade.”
- Assim, apesar do Recueil conter arquivos que se estendiam até as terras da Alemanha, da Espanha e da Itália (onde chegavam as influências da abadia), apenas os arredores vizinhos são postos, nos documentos sob luz suficientemente forte e contínua. Concentrou-se assim, em um território mais restrito.
- “Com efeito, neste pequeno quadro propunha-me a ver tudo o que se mostrasse visível a fim de apreciar, tudo quanto fosse possível, à maneira dos geógrafos, as múltiplas articulações de um conjunto.”
- “Eis no que, fundamentalmente, o meu projeto diferia do de Marc Bloch.”
p.24
- Bloch se utilizava dos métodos globalizantes da Antropologia, “convencido da fecundidade do método comparativo” - ao estudar instituições (ou estratificações) de poder específicas - “insistiu em abarcar com um só olhar um vasto espaço pleno de contrastes.” Em busca talvez de uma linearidade na influência de cada uma de suas “áreas de interesse” para a totalidade de um sistema.
- “O exemplo, aqui, não me veio de Marc Bloch, mas de Perrin.”
- “Delimitada a área, eu tinha de prosseguir a minha pesquisa pois Cluny não ocupava, longe disso, todo o terreno. Poderia estar certo de encontrar fora de seus arquivos informações complementares.”
- “Das quarenta e cinco edições por mim utilizadas, onze datavam dos séculos XVII e XVIII, vinte e nove, ou seja, dois terços, foram impressas na segunda metade do século XIX, apenas cinco foram publicadas depois de 1910, e isto, demonstra a vitalidade da erudição da França sob o segundo Império e nos começos da terceira República, assim como o enfraquecimento no início do século XX.”
p.25
- Descobriu arquivos raros e de difícil acesso que os detentores guardavam a sete chaves por acreditarem ser (estes livros e pergaminhos) os melhores guardiões de seus direitos. Ao que o autor confessa: “Tive que enganar a sua impertinente vigilância.”, fala também da sensibilidade atiçada pelo contato com arquivos tão raros, que tão pouco tinham sido consultados, além do ato de decifrá-los.
- “No final da tarde, uma mão-cheia de dados, leves. Mas só nos pertencem a nós, que os soubemos fazer saltar, e a caçada teve muito mais importância do que a caça.”
p.26
- O autor chama de monumento um importante arquivo que segundo ele fora feito com a mesma preocupação e rigor, de harmonia, de perfeição no despojamento, de adequação entre forma e conteúdo que as igrejas de Cister, ordem religiosa que o cunhou.
- “Nesse tempo, o candidato a doutor devia acrescentar à sua tese principal uma complementar. Escolhi publicar o conteúdo das vinte e seis tábuas que havia descoberto, acrescentando assim a edição crítica de um novo texto aos quarenta e cinco que estudava no momento.”
- “No final da minha exploração dos arquivos e das bibliotecas, tinha reunido duas vezes mais atas do que as que se encontram, respeitantes ao terreno de minhas investigações, no Recueil des chartes de Cluny. Perto de dez mil, algumas de duas ou três linhas, outras cobrindo dezenas de páginas impressas.”
p.27
- “Quanto a essas outras <<fontes>> que dizemos narrativas, (...) redigidos não por notários, mas por escritores e com uma ou outra finalidade (...), documentos menos lacônicos, mas também muito mais frágeis (...), não mente verdadeiramente, mas por vezes efabula e em todo o caso se mostra inevitavelmente prisioneiro, se não dos seus interesses.” Estas vieram fragmentadas e pouco numerosas.
- “Pude retirar mais da obra de (...) Raoul” religioso da congregação clunicense que escreveu cinco livros de Histoires dedicados, em meados do século XI, ao abade de Cluny, Odilon.
p.28
- Muito aberto ao mundo, ousado e de uma assinalável lucidez, Raoul tinha visto muito, ouvido muito, e retido bastante. Mas quando põe em ordem” os relatos “fá-lo com a intenção de neles fazer aparecer a vontade de Deus, a sua cólera ou a sua benevolência, misteriosamente expressas por esses acidentes que vinham romper a ordem das coisas. A realidade da vida social só se revela claramente nesta narrativa em fugidos clarões.”
- Quanto a prescrutar os silêncios, o autor diz que não pensava nisso, que os historiadores dessa época ainda não haviam descoberto o interesse de “interrogar dessa forma os testemunhos deste tipo.”
- O autor contava também com as correspondências do abade Pierre, que viveu quase um século depois de Raoul. Nestes escritos, Pierre reuniu histórias edificantes em que os protagonistas são tidos como locais, mas que também são permeadas pelo além.
- “Esta encenação, como a de Raoul, traz pouca luz sobre os comportamentos vividos, mas ensina muito sobre as atitudes mentais. (...) “Em 1944, não distinguia a sua riqueza.”
- Aproximava-se da história social como na época nos aproximávamos da história econômica, apoiando-me no sentido exterior, aparente, do documento, e sem suspeitar que ele podia esconder outros.
Cap IV – O Tratamento dos textos (p.29 a p.38)
p.29
- De uma maneira geral, aliás, estava bastante mal preparado para tratar o material em estado bruto que havia acumulado.
- Deparou-se com duas vias: 1ª - Escola dos forais (formava eruditos) 2ª - Faculdade de Letras (formava professores, ensinava mais a falar do que a fazer a história)
- Duby escolhera a segunda.
p.30
- A Escola dos Forais ensinava as “práticas que conferem à história a aparência de uma ciência exata.
- Trabalhavam “purificando” as fontes, indicando a maneira correta de se ler aquilo que chamavam de provas.
- Faziam surgir a “verdade”.
p.31
- Foi de certa forma, difícil para o autor conduzir sua pesquisa, pois se tratava de documentos forais.
- Entretanto, possibilitou que ele identificasse algumas questões fundamentais para análise destes mesmos documentos.
- Dentre estas questões, o autor aponta que muitos documentos se tratavam de cópias e falsificações, às vezes cópias das cópias.
p.32
- Outro ponto que o autor pôde perceber é que os escribas tinham empregado fórmulas de escrita muitas vezes mecanicamente, transpondo palavras pronunciadas para uma linguagem formal de praxe ao exercício dos notários daquela época.
- Crítica também - escritos no latim, uma língua não morta, mas da qual os camponeses, nem mesmo os guerreiros, de quem as atas tratavam compreendia uma só palavra.
- Daí que seu objetivo era refletir na busca de compreensão da visão desses guerreiros e desses camponeses a respeito disso tudo.
- Era preciso aproximar-se deles, compreender o melhor possível seu tempo/espaço. Esforço difícil já que muitos documentos dos séculos X e XI não eram assinalados com o ano.
- Muitas vezes os documentos fazem menção a personagens do poder, e acontecimentos – isto é útil.
p.33
- Entretanto os documentos estão cheios de truques, e o autor usou de diversas confrontações para apurar o material.
p.34
- (Re)Visitou os locais – que já conhecia bem – dos quais os documentos estavam tratando. “Julgava necessário este estreito comércio, prolongado, carnal, com a terra. Esperava que ele me ajudasse a melhor escutas os textos, (...) aproximá-los da vida.”
- Por isso, também se empreitou pelas atividades comuns aos camponeses nestes lugares.
- “Acontece que o historiador descobre inesperadamente muito do que procura quando sai do seu canto e olha à sua volta.”
p.35
- Sua vivência veio a propiciá-lo observação e experimentação empírica necessária para imaginar os códigos de classe que moldavam as relações entre camponeses, guerreiros e clero – estes últimos, “donos da salvação pelas orações que decidiam rezar em favor de tal ou tal defunto”.
- “O que eu procurava em minhas caminhadas através dos campos e dos bosques era conseguir encontrar um ponto de vista, concreto, sobre o real, ao qual pudesse me agarrar.”
- “Não tinha, com efeito, uma consciência suficientemente clara das discordâncias entre o estado atual da paisagem e o seu estado no passado.”
- “Claro que nenhuma revolução técnica tinha vindo alterar radicalmente nestas regiões o sistema agrário e, há quarenta anos, a rede dos caminhos não tinha evoluído muito mais desde o ano mil.”
p.36
- Mas o espaço urbano havia mudado muito, as disposições das casas por exemplo.
- Os documentos situam aquelas casas no nome que hoje ainda se dá ao local - de vila, mas o que significava esta palavra perto do ano mil naquele lugar?
- “Sem consciência destas incertezas, seguia em frente sem hesitar. Hoje teria sido bastante mais prudente.”
- Nos documentos dos séculos X e XI, os indivíduos são geralmente designados por um só nome (sem sobrenome). Às vezes acrescentam um apelido para distinguir homônimos, mas por vezes, apelidos são trocados.
- “Acrescento que a liberdade dos escribas era grande quanto à ortografia, tanto dos nomes como dos apelidos, todos latinizados.”
- A questão era, portanto, como então encontrar os antepassados e parentes destes personagens? p.37
- Ia confrontando as evidências uma a uma, tecendo novos métodos para fazer distinção entre um e outro. Enveredando-se pelos caminhos que pistas levavam e recolhendo fragmentos.
- Para compreender os termos empregues nesses documentos fazia-se valer de um dicionário de latim medieval elaborado no século XVIII por Du Cange.
- Entretanto descobrira que mesmo o mais sofisticado dos glossários era insuficiente. “Pois essas palavras, que pertenciam todas a uma linguagem pedida de empréstimo, nunca se ajustavam inteiramente à realidade (...)”.
- “O seu sentido flutuava também porque essa realidade, as realidades sociais, aliás, muitas vezes incorretamente percebidas pelos seus contemporâneos, eram elas próprias flutuantes.”
- “Eu tinha de interrogar-me a cada passo sobre esse sentido, verificá-lo minunciosamente, em função do contexto, em função do lugar e da época da redação.”
p.38
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Apontamentos
1 - Crítica: a pontuação deste livro está um horror.
Citações diretas
1 - “Adivinhava, sobretudo, que uma sociedade, como uma paisagem, é um sistema de que múltiplos fatores determinam a estrutura e a evolução, que as relações entre esses fatores não são de causa e efeito mas de correlação, de interferência, e que é um bom método, num primeiro momento, examiná-los um por um, pois cada um deles age e evolui segundo o seu próprio ritmo, mas que se torna imperativo considerá-los na indissociável coesão que os reúne se queremos compreender o funcionamento do sistema.”
2 - “No final da tarde, uma mão-cheia de dados, leves. Mas só nos pertencem a nós, que os soubemos fazer saltar, e a caçada teve muito mais importância do que a caça. O historiador nunca se encontra tão perto da realidade concreta, dessa verdade que morre para alcançar, e que lhe escapa sempre, como quando tem à sua frente, examinando com os seus próprios olhos, estes fragmentos de escritos vindos no final dos tempos, como destroços sobrevindos a um completo naufrágio, estes objetos, cobertos de sinais, que se podem tocar, cheirar, olhar à lupa, a que ele chama, no seu calão, as <<fontes>>.”
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