Apologia da História - Introdução (fichamento)

 BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 

 

Sobre o livro e o autor 

 

- Marc Léopold Benjamim Bloch (1886 – 1944) foi um historiador francês e um dos fundadores da Escola dos Annales (junto com Lucien Febvre)  - movimento historiográfico que se constituiu em torno do periódico acadêmico francês Annales d'histoire économique et sociale, a partir de 1929, tendo se destacado por incorporar métodos das Ciências Sociais à História. 

 

- Amigo de Lucien Febvre  

 

- A primeira publicação deste livro foi em 1949 

 

- Este livro foi escrito contra ataques à disciplina da história, principalmente em relação aos textos de Valéry, além disso, serve também para apresentar a ainda presente relevância do estudo da história dentre as diversas ciências e seu lócus próprio neste universo.  

-Cada vez que nossas tristes sociedades, em perpétua crise de crescimento, põem-se a duvidar de si próprias, vemo-las se perguntar se tiveram razão ao interrogar seu passado ou se o interrogaram devidamente. 

- Segundo o autor, abster-se da pesquisa histórica seria multilar a humanidade por conter seu ímpeto (fome nas palavras do autor) intelectual que inquire sobre o passado. "O bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está sua caça." 

 

- March Bloch defende que o fato histórico não é um fato "positivo", mas 

o produto de uma construção ativa de sua parte para transformar a fonte em 

documento e, em seguida, constituir esses documentos, esses fatos históricos, em problema. 

 

Bloch militou na resistência francesa, fez parte do comitê diretor do órgão Franc-tireur (Franco-atirador). Detido e torturado pela Gestapo, foi fuzilado em 16 de junho de 1944. (wikipedia 

 

Introdução (p. 41 até 50) 

 

p.41 

 

- "Papai, então me explica para que serve a história." Abre o livro.  

- O autor julga esta aparentemente ingênua pergunta uma pergunta pertinente, já que em sua incisiva objetividade própria da idade, a criança põe em julgo o problema da própria legitimidade do estudo da história.  

 

p.42 

 

- Na verdade naqueles tempos, segundo o autor, toda a sociedade ocidental se questionava a respeito da mesma problemática. “Pois, diferentemente de outros tipos de cultura, ela sempre esperou muito de sua memória.” – Os gregos e os latinos, nossos primeiros mestres, eram povos historiógrafos.  

- A religião e arte são marcas relevantes da humanidade contida na história e em seus processos.  

-Contudo, “as civilizações podem mudar. Não é inconcebível, em si, que a nossa (ocidental) não se desvie da história um dia.. (...) “Mas se um dia chegássemos a isso, seria ao preço de uma violenta ruptura com nossas mais constantes tradições intelectuais.”.  

- Cada vez que nossas tristes sociedades, em perpétua crise de crescimento, põem-se a duvidar de si próprias, vemo-las se perguntar se tiveram razão ao interrogar seu passado ou se o interrogaram devidamente. Remoer as causas dos desastres.  

Assim, no dia da invasão das tropas nazistas à Paris, um senhor indagou ao autor “É possível acreditar que a história tenha nos enganado.”. E assim, nas palavras deste segundo, Assim, a angústia do homem feito ia ao encontro, com um acento mais amargo, da simples curiosidade do rapazola. É preciso responder a um e a outro.. 

 

p.43 

 

- Entretanto, convém saber o que quer dizer a palavra "servir".  

- De certo que ela entretém. 

- Como germe e como estímulo, seu papel foi e permanece capital. Antes da obra de ciência, plenamente consciente de seus fins, o instinto que leva a ela é o mesmo na história e nas outras ciências: A pulsão de evolução do nosso comportamento intelectual. 

- Podemos citar inclusive a física, cujos primeiros passos devem muito aos "gabinetes de curiosidade". 

- Pouco a pouco, o interesse ingênuo se torna algo sério, tal é a gênese da arqueologia e também mais recentemente, do folclore.  

 

p.44  

 

- Não obstante, quando acrescida de método, a história proporciona um prazer intelectual puro; e poético por seus ornamentos, já que o espetáculo das atividades humanas, que forma seu objeto específico, é, mais que qualquer outro, feito para seduzir a imaginação dos homens. 

- Por outro lado, “as longas minúcias da erudição histórica, muito capazes de devorar uma vida inteira, mereceriam ser condenadas como um desperdício de forças absurdo frente a outras ciências que buscam conclusões mais efetivas como a astrofísica e a biologia. 

-Mas o que torna legítimo o esforço intelectual? Pós-positivismo ninguém ousaria dizer que seria por sua aptidão a servir à ação. 

 

p.45  

 

- A experiência não apenas nos ensinou que é impossível decidir previamente se as especulações aparentemente as mais desinteressadas não se revelarão, um dia, espantosamente úteis à prática.”. 

- “Seria infligir à humanidade uma estranha mutilação recusar-lhe o direito de buscar, fora de qualquer preocupação de bem-estar, o apaziguamento de suas fomes intelectuais.” 

- Independentemente até de qualquer eventualidade de aplicação à conduta, a história terá portanto o direito de reivindicar seu lugar entre os conhecimentos verdadeiramente dignos de esforço apenas na medida em que, em lugar de uma simples enumeração, sem vínculos e quase sem limites, nos permitir uma classificação racional e uma progressiva inteligibilidade. (Desenvolver-se enquanto método) 

- Não se pode negar, no entanto, que uma ciência nos parecerá sempre ter algo de incompleto se não nos ajudar, cedo ou tarde, a viver melhor. 

- Mas como não seria benéfica ao homem, a ciência que trabalha tem o próprio homem e seus atos como material? 

- Uma velha tendência, nos inclina a guiar nossas ações pedindo conselhos à história. Consequentemente também a culpamos quando nossas previsões falham, assim como fez o senhor durante a invasão das tropas nazistas.  

- Para agir sensatamente, não será preciso compreender em primeiro lugar? Neste caso cabe compreender também os limites da história. (opinião). 

 

 

p.46  

 

- É importante se ater com seriedade a este debate supracitado na citação à cima.  

-A imagem que fazem de nossos estudos não foi captada na oficina. Recende antes a oratório e a Academia do que o gabinete de trabalho”. 

- Então, como e por que um historiador pratica seu ofício? 

- A tarefa da pesquisa histórica não é simples, e jamais se repete, sendo um esforço para se conhecer melhor, é por excelência uma “coisa em movimento” (nas palavras do autor). 

- Mas a história não é a relojoaria ou a marcenaria. É um esforço para o conhecer melhor: por conseguinte, uma coisa em movimento. Limitar-se a descrever uma ciência tal qual é feita será sempre traí-la um pouco. É mais importante dizer como ela espera ser capaz de progressivamente ser feita. 

- A pessoalidade implicada na pesquisa histórica acarreta uma gama gigantesca de possibilidades de desvelo. Consequentemente, “a história ainda se encontra numa fase bem mais desfavorável às certezas” que muitas outras ciências. 1 

 

 

p.47  

 

- Ainda, apesar de antigas as histórias (há muito apinhada de ficções), ela permanece, como empreendimento racional de análise, jovem. – Naquele momento, assim “como as outras ciências que têm por objeto de estudo o espírito humanoEla ainda não ultrapassou, quanto a alguns dos problemas essenciais de seu método, os primeiros passos. 

- Tem dificuldades para penetrar, enfim, no subterrâneo dos fatos de superfície, para rejeitar, depois das seduções da lenda ou da retórica, os venenos, atualmente mais perigosos, da rotina erudita e do empirismo, disfarçados em senso comum (dentre os eruditos/ falta de pensamento crítico).” (Poético Ò.õ) 

- Entretanto, no passado ao aplicarmos a pesquisa histórica para formulação de “leis incontinenti universais” demos origem a duas tendências que nasceram ao mesmo tempo, porém opostas. 

- Uma delas foi a de instituir uma ciência da evolução humana embasada no racional (nos moldes dos pensamentos de Durkheim). E o preço era acabar deixando de lado as tensões mais exaltadas que impediam a construção linear da história, e outras questões críticas de lado, uma ciência pragmática, porém estéril.  

 

p.48  

 

- Ao mesmo, tempo nasceu um grupo de humildes desiludidos que em razão dos múltiplos recomeços da crítica documental, acabaram por ver nela, em lugar de um conhecimento verdadeiramente científico, uma espécie de jogo estético ou, exercício de higiene benéfico à saúde do espírito. "É muito útil colocar-se questões, mas muito perigoso respondê-las"? Segundo o autor, estes historiadores tinham fôlego um pouco curto para a intrepidez necessária à pesquisa.  

 

p.49  

 

- Entretanto, em 1942 a atmosfera mental já não era a mesma dos positivistas. As noções de ciência haviam sido flexibilidades pelas recentes descobertas que colocaram em cheque, muitas questões que se diziam fundamentais a ciência, como a experimentação. Aproximando mais a história das outras ciências.  

- “Aceitamos muito mais facilmente fazer da certeza e do universalismo uma questão de grau.” (...) “Não sabemos ainda muito bem o que um dia serão as ciências do homem. Sabemos que para existirem — mesmo continuando, evidentemente, a obedecer às regras fundamentais da razão —, não precisarão renunciar à sua originalidade, nem ter vergonha dela. 

 

p.50 

 

- O autor finaliza esta introdução argumentando que “toda ciência, tomada isoladamente, não significa senão um fragmento do universal movimento rumo ao conhecimento.”. 

- “(...) para melhor entender e apreciar seus procedimentos de investigação, mesmo aparentemente os mais específicos, seria indispensável (...) associá-los ao conjunto das  

tendências que se manifestam, no mesmo momento, nas outras ordens de disciplina.” (olhar transversal/[hoje] indisciplinar).  

 

Cap. 1 (p. 51 até 68) 

 

Apontamentos 

 

1 - A história é própria do ser humano, e nada mais humano que a cultura.  

2 - Faz-se melhor ao reconhecer exatamente a especificidade dos locais escolhidos para a procura, o que se procura, e o que se espera encontrar (quais são as apostas?). 

3 É claro que os pensamentos contidos por este autor são Rudimentares. Boaventura de Souza Santos escreveu reflexões bem mais desenvolvidas sobre este mesmo assunto.  

 

Citações diretas 

 

 

1 – Cada vez que nossas tristes sociedades, em perpétua crise de crescimento, põem-se a duvidar de si próprias, vemo-las se perguntar se tiveram razão ao interrogar seu passado ou se o interrogaram devidamente.  (42) 

2- A experiência não apenas nos ensinou que é impossível decidir previamente se as especulações aparentemente as mais desinteressadas não se revelarão, um dia, espantosamente úteis à prática. (45) 

3 - “Seria infligir à humanidade uma estranha mutilação recusar-lhe o direito de buscar, fora de qualquer preocupação de bem-estar, o apaziguamento de suas fomes intelectuais.”. (45) 

4 - Independentemente até de qualquer eventualidade de aplicação à conduta, a história terá portanto o direito de reivindicar seu lugar entre os conhecimentos verdadeiramente dignos de esforço apenas na medida em que, em lugar de uma simples enumeração, sem vínculos e quase sem limites, nos permitir uma classificação racional e uma progressiva inteligibilidade. (45) 

5- Mas a história não é a relojoaria ou a marcenaria. É um esforço para o conhecer melhor: por conseguinte, uma coisa em movimento. Limitar-se a descrever uma ciência tal qual é feita será sempre traí-la um pouco. É mais importante dizer como ela espera ser capaz de progressivamente ser feita. 

 

 

 

Vocabulário 

 

Apinhar –  

 

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