Arte e musealização I - Parecer técnico de reinstituição

 Proposta: Imagine a seguinte situação: Os membros da comunidade do Caldeirão, herdeiros dos sobreviventes, solicitam ao Museu do Ceará restituição dos objetos do Caldeirão. Você é o museólogo da instituição e está responsável pela escrita do parecer técnico. Este parecer deverá responder à comunidade se os objetos serão ou não restituídos. Escreva o texto do parecer. (modelo em anexo) Resposta: anexado separadamente. 

PARECER TÉCNICO 

Em resposta aos herdeiros dos sobreviventes da comunidade do Caldeirão que requerem a reinstituição dos bens confiscados durante invasões militares na década de 1930, peças que hoje compõe acervo no Museu do Ceará, o museólogo Vitor Gomes dos Santos, em sua função de responsável pelos objetos mencionados, escreve dando parecer sobre a dada solicitação. 

Os objetos tratados são: uma bandeira, duas cruzes, uma espingarda, uma palmatória, uma foice, um machado, um turíbulo, três roupas de culto e uma cadeira com braços. Sendo requeridos de volta a comunidade do Caldeirão, na figura dos herdeiros do patrimônio daqueles que sobreviveram as invasões. Estes, reclamam posse dos bens listados, mas não emitiram um pedido formal com dossiê anexado. Nós aqui do museu recebemos apenas uma declaração de intenção.  

Tal coleção passou por várias apropriações simbólicas e até diferentes destinos físicos antes de ocupar sua atual posição no Museu do Ceará, e por isso, trata-se deum aparato rico em historicidade e potencialidade para a performance museal. Dessa forma, logo após as apreensões ilegais por parte da polícia, enquanto alguns pertences do povo do caldeirão foram vendidos, ou extraviados, estes, aqui em questão, foram levados à chefatura da corporação responsável, expostos como troféus, (tendenciosamente) enquadrados por legendas que afirmavam a superioridade da polícia em toda a ação tomada, e ainda publicados, junto com tal aparato expositivo, em um livro do próprio Tenente Góes. Após um tempo foram levados ao Museu do Ceará em um “levante” de acervo que trouxe vários outros objetos que remetiam a memória do estado.  

Tendo em vista que este primeiro pedido reinstituição não veio com argumentos anexados, a metodologia fez-se de uma bibliografia geral sobre o tema, extensa demais para ser descrita aqui. Mas há de se considerar primeiramente as inferências sobre a potencialidade de performance museal como nas ideias de Stránskýque são muito bem descritas no artigo “Passagens da Museologia: a musealização como caminho” de Bruno Brulon, e a possível consequente intervenção crítica social em benefício do povo cearense que observa-se como possibilidade a partir da visão conjugada com o material documentário de Rosemberg Cariry e com o texto “A peleja do tempo nas memórias do Caldeirão” de Francisco Régis Ramos.  

Os objetos aqui tratados têm um papel importante no Museu do Ceará tendo em vista que possibilitam a reflexão e pesquisa sobre diversas tensões ainda presentes nos dias de hoje, como aquelas entre polícia e populações marginalizadas, coletivo e individual, estado e povo, fé e política, liberdade e repressão, e sobretudo aquelas provenientes da violência presente no contexto, e todas suas facetas. Dentre estas últimas, é importante lembrar as apropriações simbólicas dos objetos pela polícia como forma de violência simbólica, tal qual as próprias incursões militares como forma de violência física, moral e até psicológica. Tais aspectos todos reunidos são indicativos de valores sociais históricos no estado do Ceará e devem ser percebidos com tal importância. Enfim, o museu teria a possiblidade de explorar todo o potencial de performance museal das peças em benefício da população, como um todo.  

Dessa forma, de primeira instância declino o pedido de reinstituição, apesar de tal decisão não estar completamente em meus poderes. Por isso, acredito que qualquer que venha a ser o(melhor)destino dos objetos, estes precisam estar preservados e expostos, respeitando sobretudo o valor simbólico que adquiriram, que representa uma importância mais premente do que o valor de uso pois toca a vida de mais pessoas. Neste sentido, é importante lembrar que os bens do Caldeirão sempre foram um bem comum, mas abrindo certa exceção às regras daquele povo, pode haver objetos que carreguem determinada importância para seus herdeiros, seja ela simbólica ou econômica. Neste caso, os herdeiros dos sobreviventes podem reivindicar objetos específicos mediantes requisições específicas, com argumentos que as validem. No entanto, para o presente caso, que envolve a totalidade do acervo, o museu assume a responsabilidade pela salvaguarda do mesmo, possibilitando, não obstante, o estabelecimento de dois pontos de articulação entre essa população e o museu, sob futuros movimentos de apropriação física e simbólica a partir do acervo. O primeiro, é o convite para uma curadoria colaborativa dos objetos em questão com trocas de informações, e aprendizado conjunto das histórias que permeiam os objetos. E o segundo, é a abertura para um projeto colaborativo a longo prazo para que essas peças possam ter um local construído para recebe-las da melhor forma, no local tido como adequado pelos herdeiros que as reivindicam, caso seja de interesse dos mesmos.  

Finalmente, apesar de declinar a reinstituição do acervo, por todas as questões acima mencionadas, aguardamos resposta sobre objetos específicos e sobre uma futura colaboração no sentido acima proposto.  

 

Espaços para assinatura do Museólogo responsável pelo Museu do Ceará (Vitor G. S.) e do Diretor do Museu do Ceará. 

Local e data. 

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