Arte e Musealização I – Proposta de documentação da recepção da obra “diva” de Juliana Notari

Partindo dos pressupostos de que arte contemporânea traz reflexões de seu tempo e que é função do museu privilegiar a arte que tem conotação social e impacto sob seus públicos, eis aqui uma proposta de documentação da obra “Diva” de Juliana Notari, artista que tem mais de 20 anos de carreira, e trabalha com várias linguagens como vídeos, instalações, fotografia, desenho e objetos através uma abordagem multidisciplinar. A obra, de 33 metros, traz à tona muitas reflexões, dentre elas, várias ligadas a gênero, incluindo apropriações simbólicas através dos monumentos, que geralmente são fálicos - opondo-se, e expondo através da instalação um machismo estrutural que encontra ressonância entre grupos de diferentes extratos sociais, e que pode ser observado através de diversos comentários nas redes sociais, críticas e notícias. Fazendo-se importante veículo de análise social, a obra traz à pauta discussões de aspectos (sociais, ambientais, culturais, e mais...) que geralmente se encontram velados, mas que se tornam visíveis através da mesma. Além das questões de gênero, a obra/monumento (ou anti-monumento) relembra e denuncia embates de conotação histórica, com inúmeros reflexos na contemporaneidade, na região onde foi feita a instalação. Sendo, portanto, um importante produto da arte contemporânea pernambucana, na medida que trata pluralmente de diversas narrativas locais, e que dentro de sua própria singularidade, contempla os critérios de temporalidade das coleções, que requerem uma proximidade temporal com o presente, assim como a um passado recente LÉVESQUE (2006, p. 137 trad. nossa).  

Sendo este passado, o passado da própria autora e das temáticas por ela trabalhadas. A artista provoca, através de sua arte, a exposição da ferida causada pela violência da exploração agrária de cana de açúcar naquele local, usando a vulva não só como metáfora de infinitos valores sobre aquela coisa que envolve e é, ao mesmo tempo ferida, mas como analogia que se apresenta em um processo correlato, graças a perspectiva histórica de exploração da mulher. Ou seja, existem dois atos de violência colonial sob um mesmo símbolo, a obra “Diva”, mas que na verdade abrem espaço para contestação da violência e da exploração nos mais diferentes sentidos, sendo o local da instalação também simbólico, já que era lugar de vários quilombos e aldeias indígenas, todas impactadas pela exploração da natureza na região. Influem-se diversos significados, sentidos perpassam a obra, mas sua marca é o movimento, tornando-se importante a compreensão do fluxo de apropriações para apreensão da obra.  

De uma perspectiva multicultural e pós-colonialista, a ferida aberta na terra simboliza a violência contra a mulher, contra a terra, contra os quilombos que antes ocupavam aquele lugar, contra o meio ambiente, contra os índios que habitavam aquele lugar, e enfim, contra as minorias subjugadas nos processos de extração exploratória dos bens e valores de cada uma, tudo isso se constela na materialidade da obra, e é dessa forma que a obra se insere na cena atual, não só localmente, mas de repercussão no mundo inteiro. Neste sentido, propõe-se aqui observar e documentar a recepção da obra “diva” de Juliana Notari, com o intuito de destacar o impacto da obra por temáticas, valendo dos comentários feitos nas redes sociais, notícias e críticas de arte, para comparar a incidência das repercussões da obra e o entrelaçamento das ressonâncias dentro de cada temática social, visando uma melhor compreensão da estrutura simbólica social em movimento a partir do objeto, e por vezes para o objeto. 

JUSTIFICATIVA 

A obra “Diva” no começo do ano gerou inúmeros comentários e críticas que vieram sob diversas formas, como respostas a posts nas redes sociais, reportagens, críticas de arte propriamente ditas, etc. A obra provoca inflexões nas mais diferentes esferas sociais, e hibridismo entre os mais diversos temas, tornando-se um importante instrumento capaz de trazer à tona as formas (estruturas simbólicas) estabelecidas de forma velada pelas relações do dia-a-dia. Dessa forma, defende-se aqui que o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) faça a documentação da recepção da obra nas redes sociais, em um trabalho de registro historiográfico da contemporaneidade, e que se utilize deste instrumento, através de sua potencialidade museal, para suscitar reflexões sobre as inflexões da obra na sociedade, e sobre as inflexões das mudanças da sociedade na obra, uma espécie de meta reflexão útil ao mundo da arte. Tal trabalho será vital ao museu por estar cumprindo seu papel de trabalhar a arte moderna e contemporânea, em aspectos colocados por LÉVESQUE (2006, 150-151) como sendo grandes desafios do museu de arte contemporânea, listados como temporalidade no sentido de se deslocar no tempo trazendo à tona um passado recente e um presente precisamente instantâneo, espacialidade que em um contexto fragmentado deve tanger tanto um nível local quanto um nível global e narrativa-diferentes narrativas precisam ser contempladas.  

Além disso, faz necessário tal abordagem para compreender melhor este importante caso da expressão artística contemporânea, visando enquadrá-la ou descartá-la posteriormente em um trabalho de articulação de séries, já que este tipo de arte é algo que se desdobra em um curto espaço de tempo, e que por ser imediato, não acontece sob parâmetros pré-definidos, ou seja, crítica e apreciação popular da obra se constroem a partir da obra, ao mesmo tempo que constroem os significados da própria obra, portanto, não existem parâmetros e critérios de apreciação pré-estipulados. Sendo possível, apenas através de exercícios que busquem a compreensão do processo de recepção, em movimento, captar os recursos necessários para o trabalho crítico, seja ele de ordem artística, museal ou patrimonial, individual ou coletivo. Além disso, tal trabalho inclui também, rever as próprias diretrizes e considerações sobre arte do museu em uma tentativa de acompanhar as transformações das tendências deste campo em construção, que é o campo da arte contemporânea pós-moderna, visando trabalhar um programa de acolhimento para as obras mais recentemente produzidas. Para vários atores da arte contemporânea ([Ammann, 1977;David, 1989;Froment, 1990; Raspail, 1991] apud LÉVESQUE, 2006, p.150 trad. Nossa), o campo de reflexão próprio da obra torna-se o motor de formação das séries.  

OBJETIVO GERAL 

Gerar dados para apreciação visual e reflexiva do impacto da obra em diversas esferas sociais a partir das temáticas suscitadas pelos comentários, artigos e críticas sobre a obra que apareceram nas redes sociais. 

MÉTODOS E MATERIAIS 

Nos exercícios 6 e 7 do Roteiro de Estudos II foram fichadas entrevistas, matérias de jornais, textos de crítica, comentários entre outros materiais públicos em resposta à obra “Diva de Juliana Notari”. Neste sentido, propõe-se aqui, a continuidade deste fichamento, de forma mais completa possível visando uma posterior análise de cluster a partir das temáticas dos assuntos: étnico-raciais, de gênero, de classe, meio-ambiente e geopolítica das artes, e outras, podendo inclusive ser destacado subtipos, de acordo com a incidência destes assuntos no material compilado revelando o impacto da obra e as relações tecidas entre as temáticas, a partir dela. Podendo ser inclusive montadas diferentes estruturas de cluster sobre diferentes óticas de apreciação. O projeto deve ser desenvolvido por quatro pesquisadores bolsistas do curso de graduação em museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), durante o período de 23/03/2021 a 23/03/2022. Não obstante, buscará captar inicialmente as reportagens mais antigas, visando sempre abranger o máximo de material possível. A etapa de recolhimento de material que se estenderá durante todo o percurso do projeto será acompanhada de uma análise constante dos dados. As temáticas serão identificadas na medida que as reportagens, críticas e comentários forem adicionados ao sistema, alimentando o sistema de formação de clusters que será disponibilizado no site do museu. Um grupo de estudo deve ser constituído visando diferentes metodologias de articulação dos dados produzidos, assim como dos materiais colhidos. Enfim, serão responsáveis por levantar aparato teórico/crítico, popular e artístico em torno do tema e correlacionar a acontecimentos de esfera político-social, repensando constantemente o sistema de documentação e o uso dos dados, visando acompanhar as mobilidades teóricas, sociais, e da arte contemporânea como um todo para se manter relevante em constante articulação com o meio. Não haverá custos para universidade tendo em vista que o programa utilizado para formação e análise de clusters é gratuito e os estudantes se voluntariaram para o projeto. Existindo recursos e a relevância se mostrando persistente, o projeto poderá se alongar.  

REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, Flávia Leme de. Volver à vulva: o olhar de uma feminista sobre algumas representações da genitália feminina nas artes visuais. In: Revista do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFPE, nº 08, Recife, 2020. (97 –111). Disponível no link: https://periodicos.ufpe.br/revistas/CARTEMA/article/download/248538/37588BRULON, Bruno. “Passagens da Museologia: a musealização como caminho”. In: Revista Museologia e Patrimônio. vol. 11, n.2, Rio Janeiro, 2018. 

DEEPWELL,Katy. La critica feminista de arte em um nuevo contexto. In: DEEPWELL, Katy. Nueva Crítica Feminista de arte. Estrategias criticas. Madrid: Ediciones Cátedra, 1998. (primeira edição em inglês de 1995). p. 19-39.LÉVESQUE, France. La collection muséale d’art contemporain comme mémoire archivée. In: Culture & Musées, n°7, 2006. pp. 137-159. 

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