Resenha crítica do artigo "Para uma museologia do sul global: multiversidade, descolonização e indigenização dos museus" do autor Nuno Porto

PORTO, Nuno. Para uma museologia do sul global: multiversidade, descolonização e indigenização dos museus. Mundaú, Maceió - AL, v. 1, n. 1, p. 59-72, fev./2016. Disponível em: <http://www.seer.ufal.br/index.php/revistamundau/article/view/2367>. Acesso em: 6 nov. 2019.

 

   Nuno Porto é um estudioso das relações entre imagem, tradição e cultura no campo da antropologia social. Hoje em dia, seus estudos são voltados para os museus e para emergência das vozes silenciadas nos processos de colonização.

Partindo da metáfora de Boa Ventura de Sousa Santos que propõe pensar no processo histórico colonizador como um processo em que algumas formas de conhecimento se sobrepõem sobre outras, pertencentes aos povos colonizados. O autor propõe que é urgente resgatar essas visões de mundo através de uma museologia socialmente engajada. Sendo o norte o conhecimento colonizador e o sul o conhecimento silenciado.

 De fato o processo de extroversão de pontos de vista divergentes é extremamente relevante, visto que cada conhecimento de mundo pode constituir universos de percepção inteiros, que quando contrapostos enriquecem a concepção de mundo. Porto defende que exaltando estas várias formas de se observar o mundo, possa se tornar possível criar conflitos com as formas impostas pelo norte, criando assim fissões onde se torna possível às pessoas repensarem da sua própria maneira, baseando-se em mais de uma perspectiva, e assim criarem suas próprias perspectivas de realidade e de mundo.

Para possibilitar a intervenção dos espectadores dos museus o autor propõe três práticas básicas, sendo a primeira a assunção da noção de multiversidade da cultura, ou seja, os museus devem assumir que diferentes povos têm visões de mundo diferente, e isto incluí repensar taxionomias, gramáticas e terminologias para engajar sentido para a exposição, feeling. Em segundo lugar a adoção do catálogo aberto, onde o visitante pode propor mudanças nas legendas e disposições das informações acerca do objeto musealizado, transformando as perspectivas do objeto num processo cultura. Transitando da ideia de objeto museal que “mostra e conta” para um objeto que “mostra questiona”, assim possibilitando  a reconstrução constante em detrimento do enquadramento frio que tende ao apagamento de aspectos importantes para o reconhecimento cultural do objeto. E finalmente em terceiro lugar, entender o museu não como fim estático, fonte de informação, mas como meio contextualização e extroversão de conflitos.

Os museus, segundo o autor devem ser como nós relacionais. Não lugar de presentificação do passado concreto, mas uma conexão de passado e futuro, uma demonstração da continuidade das relações. Propondo instalações que levem em consideração problemas locais, pelos quais os visitantes possam se identificar e sentir todas as construções simbólicas possíveis ligadas àquela questão em pauta. Este ponto é colocado de forma rica e apaixonada pelo autor, que defende que tais questões devem ser questões sociais e políticas do local em consonância com acontecimento que os permeiam e os englobam.

O artigo que deu origem ao presente trabalho é mais que uma luz, é um farol para a musealização enquanto fenômeno, quebrando práticas institucionalistas de museologia e a consensualização do saber, que tende ao epistemicídio. Ele é recomendado para estudiosos que busquem entender as relações que podem ser tecidas dentro do museu e como estas se ligam com o mundo exterior, este artigo é rico em exemplificações, observações e também propostas apesar de breve e sucinto.

REFERÊNCIAS

SOUSA SANTOS, Boa Ventura. Épistémologies du Sud. Études Rurales, 1/2011, n. 187, p21-49,2011.

PORTO, Nuno. Para uma museologia do sul global: Multiversidade, descolonização e indigenização dos museus. Mundaú, Maceió - AL, v. 1, n. 1, p. 59-72, fev./2016. Disponível em: <http://www.seer.ufal.br/index.php/revistamundau/article/view/2367>. Acesso em: 6 nov. 2019.

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