EXPOSIÇÃO “OITO HORAS NÃO SÃO UM DIA” & 34ª BIENAL SP (FAZ ESCURO MAS EU CANTO)

 

Ao ir para o museu, os objetos perdem seu valor utilitário, um museu não é um lugar das atividades diárias, mas um lugar de reflexão e contemplação sobre ela. Segundo Francisco Régis Lopes Ramos, em A Danação do Objeto, “se aprendemos a ler palavras, é preciso exercitar o ato de ler objetos, de observar a história que há na materialidade das coisas”, sendo o museu um lugar privilegiado para essas leituras, já que permite através do silenciamento, a evocação de certas qualidades intrínsecas de seus suportes que exercitam nossa visão a respeito das coisas e da própria vida que as permeia. Os objetos, que vão para lá, mediante escolhas curatoriais, adquirem um valor de signo, de acordo com o universo simbólico em que se encontra. Este último é formado pela temática da exposição e pela constelação dos elementos expositivos de encontro ao momento sociopolítico onde está inserido, território e subjetividades dos visitantes. Assim, a justificativa da exposição, evidenciada sob a forma dos textos curatoriais, do próprio nome e também do local onde acontece são de grande importância, e conferem sentido para os significantes ali expostos, criando verdadeiras constelações de astros que ao serem contempladas podem nos fazer sonhar com outras realidades possíveis. Entretanto, é importante compreender que esta coerência é inteiramente dependente da própria história do objeto (em si, ou de sua tipologia), e também do seu valor semiótico. Neste sentido, no museu, não se esvazia completamente seus sentidos, mas sim, propõe-se novos arranjos, através das possibilidades geracionais de cada objeto, preferencialmente, clamando a atenção do visitante à determinada problemática que se correlaciona a sua vivência presente.  

Indo ainda além da perspectiva apenas da exposição museográfica, e adentrando nas questões tipológicas, visitamos duas exposições de arte contemporânea. Partindo dos pressupostos de que arte contemporânea traz reflexões de seu tempo e que é função do museu privilegiar a arte que tem conotação social e impacto sob seus públicos, considerei extremamente pertinente a primeira exposição que visitamos – nomeada de “Oito horas não são um dia”. Com a curadoria de Lucas de Vasconcellos, o artista Juan Casemiro apresenta um conjunto de obras feitas com concreto, sacos de cimento e ferramentas usadas no labor da obra civil, que amarradas por um relógio do próprio Museu Mineiro - hospedador da exposição, nos traz reflexões a respeito da jornada de trabalho em uma construção com seus materiais e processos, e da própria “finitude” daquilo que é “concreto” (em seus mais amplos sentidos). Tem-se, portanto, que o concreto é de certa forma significante na exposição, mas é o tempo que lhe confere significado. Complexa a exposição, pois conversa não somente com aqueles que utilizam esse material em suas jornadas de trabalho, mas com todos nós, que trabalhamos a constante construção do artefato da cidade. Afinal, de certa forma, a cidade é amplitude da mente, limitada pela concretude de suas estruturas materiais e processos, ou não ... talvez possa ser mais que isso. O quê? Vislumbro diversas possibilidades e reflito sobre elas, e eis o impacto desta exposição sobre mim. 

A segunda exposição que visitamos foi um recorte da 34ª Bienal de São Paulo “Faz escuro mas eu canto”, apresentada no Palácio das Artes. Em tempos escuros, quais são os cantos que não podemos seguir sem ouvir, e sem cantar? A temática da bienal parte de um verso do poeta amazonense Thiago de Melo, publicado em 1965. “Por meio desse verso, reconhecemos a urgência dos problemas que desafiam a vida no mundo atual, enquanto reivindicamos a necessidade da arte como um campo de resistência, ruptura e transformação” (Trecho extraído do texto curatorial). Perguntas e questionamentos nos movem por dentre as obras. Seguindo a perspectiva proposta por Régis Ramos, o objeto pode ser tratado como indício, pelas histórias por eles perpassam, e dessa forma, o recorte da mostra no Palácio das Artes é organizado a partir de três enunciados: O sino de Ouro Preto que simboliza resistência - foi o “único da colônia a ecoar, em aberta desobediência à coroa” na morte de Tiradentes.; os retratos de Frederick Douglass – Homem negro, escravizado, que conquistou a liberdade e encomendou retratos como símbolo de autonomia e renitência; e A ronda da morte de Hélio Oiticica (projeto nunca executado) mas que aborda a obra do artista que “sempre buscou romper os limites das linguagens tradicionais para se aprofundar na experiência da arte como parte integrante da vida coletiva (Texto curatorial). As histórias destes objetos, tidas como enunciados são nesta exposição uma forma de integrar obras produzidas em lugares e momentos distintos. “Esses enunciados pontuam a exposição, sugerem o tom no qual podem vibrar as obras ao seu redor, aglutinando, tornando tangíveis as preocupações e reflexões da curadoria.” (Texto curatorial). “O que fica exposto, neste caso, é uma problemática histórica”, que vai muito além de um tempo cronológico e que possibilita a reflexão mais ampla das questões concernentes a produção da arte em tempos obscuros.   

REFERÊNCIAS 

34ª Bienal de SP – site oficial - http://34.bienal.org.br/ 

GUIA DA 34ª BIENAL DE SÃO PAULO: https://issuu.com/bienal/docs/34bsp_guia-pt_1_  

RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto: o museu no ensino de História. Chapecó: Argos, 2004 

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