MUSEUS DE ARTISTA – BANDJOUN STATION
DISCIPLINA TÓPICOS EM HISTÓRIA DA ARTE –B TM ATELIÊS DE ARTISTA, MUSEUS DE ARTISTA. PROF. DRA. CAROLINA RUOSO
VITOR GOMES DOS SANTOS
Bandjoun Station. Cortesia de Barthélémy Toguo. Fonte: www.contemporaryand.com
Arcabouço teórico
Segundo Michel Pollak, em seu célebre texto “Memória e identidade social” a memória deve ser entendida como um fenômeno social, construído coletivamente a partir de negociações entre os seus indivíduos, e submetido a flutuações, transformações e mudanças constantes. Não obstante, ressalta que existem pontos (ou marcos) que se tornaram irredutíveis na história, princípios estabilizadores das transformações, espécies de memórias mais sólidas e inegáveis, como por exemplo aquelas transmitidas pela materialidade dos objetos e referenciais arquitetônicos, ou situações que caracterizam viradas epistemológicas frequentemente reforçadas pelas marcas de estilo na ciência, na política, na arte e no imaginário, de forma geral que delas decorrem.
Não obstante, fica-nos um questionamento: qual a intencionalidade desses registros estáticos na história? Ou de forma ainda mais profunda: Quem as denota historicamente em suas características manifestações? Seriam os próprios sujeitos da experiência ou terceiros que as observam?
Primeiramente, cabe-nos questionar o que caracteriza a identidade de um sujeito. Pollak, afirma que de forma superficial a identidade pode ser entendida como uma imagem construída para acreditar (e compreender) a representação de uma pessoa, ou um povo para si mesmo e para os outros. E ainda, que, seu estabelecimento depende de uma coerência entre os elementos, de uma unidade física e de uma operação contínua. Ressaltando a íntima relação da identidade e da memória.
Octávio Paz em seu livro “O arco e a Lira” afirma: “é mais fácil traduzir os poemas astecas para seus equivalentes arquitetônicos e escurais que para a língua espanhola”. Ou seja, há mais coerência em um povo operar sua própria memória a partir de sua própria linguagem do que fazer isso a partir de elementos terceiros.
Um museu não é só o seu acervo, mas sim a maneira como lida com sua função social ao pesquisar, colecionar, conservar, interpretar e expor o patrimônio de sua comunidade. E a atual definição de museu do ICOM ressalta objetivamente a importância de fomentar a diversidade, a partir da participação das comunidades, experimentação, educação, fruição e partilha de conhecimentos.
Entretanto, historicamente os museus obedeceram a estruturas guiadas por uma linguagem eurocentrada que privilegiava as representações a partir de uma ótica que exaltava a Europa e seus povos, colocando o outros enquanto coadjuvantes de um processo evolutivo. Mas tal processo pode ser revertido pela inclusão dos sujeitos representados nas dinâmicas de curadoria.
Em arte contemporânea, importam os materiais, os processos e os sujeitos. Assim, um museu enquanto obra de arte (contemporânea) viva, e abarcando diversos elementos sociais permite também a operação de suas transformações simbólicas e identitárias a partir do estudo e da reflexão destes mesmos elementos. Tendo assim, o poder de remodelar estruturas epistemiológicas que caracterizam o aparato museal para provocar reflexões mais íntimas naqueles sujeitos por ele abarcados.
Por isso, a memória produzida em um museu de artista, exerce uma função terapêutica de reparação epistemológica, mas ao mesmo tempo uma experimentação provocadora de novas representações de mundo, combatendo o epistemicídio gerados pela canonização de formas determinadas por uma história da arte eurocentrada. Ou seja, são capazes de ampliar os repertórios de referências culturais através da experimentação e da produção da própria memória, ou como afirmar a Profa. Dra. Carolina Ruoso em seu artigo “Museus de artista: museologia social na descolonização da história da arte”: “Os museus de artista são atuações políticas que procuram organizar um pensamento pautado na diversidade”. E com certeza, precisamos dessa pluralidade de identidades pautadas em diferentes percepções de mundo para encontrarmos as cores necessárias a vida plena, algo que envolve resiliência e criatividade.
BARTHÉLÉMY TOGUO
“A cultura é uma arma para a paz” - Barthélémy Toguo
Barthélémy Toguo é um artista multidisciplinar camaronês, nascido em 1967. Foi para o exterior estudar porque não existia nenhuma escola de artes em seu país (POPPE, 2020). Formou-se pela escola Escola Nacional de Belas Artes de Abidjan, na Costa do Marfim. Começou a atuar como artista, e depois foi estudar na École supérieure d'Art de Grenoble, na França, assim como na Kunstakademie de Düsseldorf, Alemanha.
O trabalho de Barthélémy, usa da da multidisciplinariedade para embarcar em suas obras sintomas ligados as populações mais oprimidas. Além de criar obras em série para se estenderem em termos de significações através da continuidade da produção.
Acredita em redes de colaboração para aceleramento dos processos de melhoria da qualidade de vida das populações mais oprimidas. E questiona a construção das identidades através de experimentações e reflexões sobre a partilha de experiências e transmissões culturais dadas em territórios específicos, ou globais.
Entre os suportes usados por Barthélémy Toguo está a performance que pôde ser observada por exemplo quando para um voo no aeroporto Roissy-Charles De Gaulle, (...) o artista chegava para o embarque com uma cartucheira… recheada de balas de caramelo. Ou, pegando suas malas ao chegar da África, ele foi parado pela alfândega (francesa) porque suas malas eram esculpidas em madeira maciça. Em outra ocasião, vestido de varredor de rua, sentou-se no compartimento de primeira classe do trem Thalys Colônia-Paris. (JOUBERT, 2020)
Em geral, seus trabalhos artísticos misturam arte e vivência, de forma humorada e provocadora. Relevando questões reflexivas sobre as relações cotidianas silenciadas pelas estruturas de poder vigentes. Assim como problemáticas sociais, descaso pelo poder e pelas políticas com as populações mais oprimidas, relações histórico-culturais, produção do outro e formação de identidades.
Preocupado com as políticas públicas de fomento da arte e até mesmo as lógicas privadas e colecionistas que guiam o mercado. O artista incita a autonomia dos povos africanos contra “investimentos medíocres e resignação política no campo da arte”.
Teve seu trabalho reconhecido em diversas esferas, e em diversos países e foi nomeado Artista da Paz da UNESCO em Outubro de 2021. O artista ao falar do seu trabalho político que se dá através da arte e da cultura, se posiciona:
“[É] um desafio a ser assumido com um programa comum a ser transmitido onde os bens da liberdade, do conhecimento, da educação, da luta contra o obscurantismo, do desejo de humanidade, do respeito às normas levem à paz e à emancipação.” Barthélémy Toguo (UNESCO, 2020)
E quanto a esta concepção de paz, o artista explica “A paz no século XXI é o respeito das normas comuns e das liberdades individuais, sem escrúpulos e sem doutrina do ódio.” Importante denotarmos que a palavra escrúpulos se relaciona ao “estado de hesitação da consciência; dúvida ou inquietação espiritual”. Ou seja, o artista defende a liberdade de sermos cada um à sua maneira, respeitando o livre arbítrio uns dos outros em um caráter único de existência social a ser construído a partir da ciência e das artes (UNESCO, 2020).
Bandjoun Station workshop com Barthélémy Toguo. Fonte: www.artport-project.org
BANDJOUN STATION
O artista após constatar que não havia museus suficientes em África e que a arte clássica africana era representada exclusivamente em museus ocidentais, resolveu criar um espaço vivo construído como obra de arte que produz arte, workshops, trabalhos de memória, comunicação, possibilita residências artísticas e intersecciona problemáticas locais como por exemplo a agricultura, estimulando a sustentabilidade e a produção orgânica em contraposição às produções de grande escala que subalternam parcelas mais pobres da população tanto em termos de produção quanto de consumo. Permitindo reflexões e estudos sobre estes mesmos aspectos.
Os “projetos de residência podem acolher influências de todo o mundo, artistas, coreógrafos, cineastas, etnólogos, historiadores, pesquisadores, curadores de exposições” (UNESCO, 2020). Estes residentes normalmente realizam projetos com os habitantes da região em conexão com o ambiente. Podemos aqui perceber uma importante inserção na comunidade local, similar a museologia social. As pesquisas promovem ainda, entrelaçamentos que geram coerência e continuidade para a memória coletiva través de uma unidade física - o museu obra. Além disso, promovem também a circulação dos trabalhos no mundo da arte, conferindo importância para as questões locais.
Mais sobre os detalhes arquitetônicos e o funcionamento físico deste incrível projeto pode ser conferido através do site do artista, especificamente no endereço: https://www.barthelemytoguo.com/bandjoun-station-2/.
REFERÊNCIAS
ICOM. Definição de Museu. 2022. Disponível em: https://www.icom.org.br/?page_id=2776
JOUBERT, Daria. Biografia. Barthelemy Toguo, 2020. Disponível em: https://www.barthelemytoguo.com/biography/.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992.
POPPE, Esther. Bandjoun Art Station: The Importance of a Peripheral Institution in Cameroon. Contemporaryand, 2020. Disponível em: https://contemporaryand.com/magazines/bandjoun-art-station-the-importance-of-a-peripheral-institution-in-cameroon/
RUOSO, Carolina. Museus de artista: museologia social na descolonização da história da arte. (ainda não publicado).
TOGUO, Barthelemy. Estação Bandjoun, 2020. Disponível em: https://www.barthelemytoguo.com/bandjoun-station-2/.
UNESCO. Barthelemy Toguo, 2020. Disponível em: https://www.unesco.org/biennaleluanda/2021/pt/barthelemy-toguo-unesco-artista-paz.
WORKSHOP, Bandjoun Station. Artport-project, 2015. Disponível em: https://artport-project.org/portfolio/bandjoun-station-grand-palais/.
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